02/07/2026
Drama

Zafari

Ana e sua família de classe média vivem em seu antigo prédio numa Caracas passando por profunda crise socioeconômica. Sem água ou comida, a chegada de um hipopótamo no zoológico ao lado de seu apartamento muda tudo.

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Não deixa de curioso o olhar que a diretora venezuelana Mariana Rondón (atualmente radicada no Peru) lança sobre a luta de classes em seu Zafari. O longa é de 2024, e esse é um dado importante a se colocar – afinal, foi pensado, executado e lançado em festivais antes da invasão estadunidense na Venezuela, o que coloca a visão de mundo aqui em xeque. 

A trama, assinada pela diretora e Marité Ugás, se passa numa Caracas distópica, marcada por crises social e econômica. A chegada de Zafari, um hipopótamo, a um zoológico escancara as tensões sociais de tal forma que o longa transforma os pobres em algozes de uma família de classe média. 

Tudo isso é figurado por um olhar bastante elitista, com os ricos sendo meras vítimas do comunismo venezuelano malvado – embora isso não seja dito com todas essas palavras. Mas a família de classe média alta está enfurnada em seu apartamento num prédio praticamente abandonado pelos outros moradores. Sem água ou comida, eles precisam se submeter aos pobres para tentar sobreviver. Afinal, uma família menos abastada ganha para tomar conta do hipopótamo. 

Ana (Daniela Ramírez), a matriarca da família rica, vai de apartamento em apartamento em busca de comida e água, acha alguma coisa, mas logo é preciso se humilhar para Natalia (Samantha Castillo), para conseguir algo para comer. Esta, por sua vez, pega um pouco dos vegetais que são fornecidos para a alimentação de Zafari.

Enquanto a família de cuidadores é mostrada mais animalizada do que o próprio hipopótamo, Ana, seu marido acomodado, Edgar (Francisco Denis), e o filho adolescente, Bruno (Varek La Rosa), mantêm-se minimamente civilizados diante da degradação que sofrem. O verniz social não desgasta e, mesmo passando por humilhações, continuam com a dignidade intacta, afinal tiveram de passar por isso por conta de forças externas, diz o filme. 

Não há o mínimo de interesse em olhar de onde vem essa dinâmica social e como chegou a tal ponto. Tudo é dado desde o começo, Rondón não desvia de seus propósitos. A recusa em observar a tensão de classes de forma mais sofisticada, menos caricata, atrapalha qualquer propósito mais complexo que o filme pudesse ter. 

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