Atração da Quinzena dos Diretores de Cannes 2025, o novo filme do diretor israelense Nadav Lapid, Yes, chega com uma nota de estridência e provocação política para falar da atual situação de seu país - onde ele não tem vivido desde 2019, mas retornou após o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, em suas palavras, “para ver a situação com os próprios olhos”.
Crítico contumaz da política israelense, Lapid cria um relato impregnado de reflexões que não procuram ser uma narrativa política eminentemente intelectual ou racional. Pelo contrário. O diretor e roteirista procura enfeixar o frenesi das festas das elites econômicas e militares de Israel com as manifestações pela libertação dos reféns israelenses em Telaviv e também com a repressão militar a Gaza, tudo isso visando refletir o caleidoscópio exacerbado de seu país. Por isso, seu filme é frenético a partir da primeira cena, numa dessas festas, que apresenta os protagonistas da história, o casal Y (Ariel Bronz) e Yasmine (Efrat Dor).
Nessa sequência inicial, altamente sensual, a dupla é vista dançando e executando performances bastante eróticas ao som de músicas no último volume. Os dois são queridinhos dessa elite, para quem executam também serviços sexuais, num contexto em que dizer “não” é uma opção fora do alcance.
Yes é sobre isso - sobre os limites que se tem ou não diante de uma realidade desafiadora da ética, pelo menos para quem não acredita que o bombardeio sistemático sobre civis em Gaza seja uma opção legítima e justa para responder ao 7 de Outubro. Enquanto ouve notícias a respeito disso pelo rádio, Y alimenta dúvidas a respeito do que pensar a respeito, estimulado pela lembrança de uma mãe já falecida, que era opositora do militarismo israelense e que constitui uma presença etérea dentro do filme - particularmente numa sequência em que caem pedras do céu.
A crise não é exclusiva de Y - Yasmine também sonha escapar de tudo isso, levando consigo o pequeno filho do casal, ainda bebê, para crescer longe dessa realidade.
Os limites éticos de Y são testados quando ele, um pianista de formação, recebe o convite para compor um novo hino do país, em cuja letra se espera incluir as máximas de um patriotismo exacerbado e excludente. Ele escreve uma letra nestes termos mas seus questionamentos o levam a querer ver Gaza mais de perto. Para isso, ele pega a estrada e vai ao encontro de uma antiga colega de escola e ex-namorada, Lea (Naama Preis), que trabalha como tradutora oficial do exército israelense.
Numa paisagem em que se enxerga Gaza de longe, sendo bombardeada de tempos em tempos, ele e Lea conversam sobre o que é a verdade, inclusive do 7 de Outubro - sobre o que Lea tem afirmações contundentes. Mas ainda que tudo o que ela diz seja verdade, a reação de Israel é justa, proporcional? Isto ela não pode responder.
Falta ainda um encontro, o de Y com um milionário todo-poderoso de fintech (Alexei Serebryakov), que simboliza tiranos diversos - pode-se pensar em Netanyahu, Putin, Trump ou algum magnata das big techs, ou seja, todos esses figurões capazes de financiar e sustentar políticas mortíferas para diversas populações e para o planeta.
Quanto ao novo hino, os versos são terríveis, falando explicitamente em aniquilamento dos palestinos: “Em um ano, não haverá nada vivo ali e nós voltaremos” é um desses versos. E para quem achar que a imaginação do diretor correu solta e absurda, letreiros avisam que esse hino existe e foi lançado pelo grupo extremista Civic Front, que tomou a si a antiga canção patriótica Hareut, de Haim Gouri, mudando sua letra para defender o extermínio total de Gaza.
Yes é mesmo um filme incômodo, que não teme ser excessivo e constitui sem dúvida uma crítica feroz às classes dominantes de Israel e não deixa de incluir na crítica aqueles que lhes dão sustentação, por ação ou omissão. O dilema de Y, portanto, é não só ético, mas de identidade: quem é que ele quer ser e como vai viver com isso?
