18/07/2026
Documentário

ORWELL: 2+2=5

O romance 1984 é um dos mais lidos e mais influentes do século XX. Partindo dele e da vida de seu autor, George Orwell, o documentário investiga o que esse livro tem a dizer para e sobre o mundo em que vivemos. Nos cinemas.

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Ler George Orwell nunca sai de moda. Publicado em 1949, por exemplo, 1984 é o clássico absoluto sobre totalitarismo que agrada a ambas pontas do espectro político. Uma crítica ao capitalismo, ou uma crítica ao comunismo – mesmo parte da esquerda o lê, não sem razão, como uma crítica à União Soviética Stalinista. A questão é que, nos quase 80 anos de sua publicação, o romance caiu em armadilhas que nem seu autor havia previsto.

De reality show a banimento de bibliotecas, 1984 fala aos corações e mentes que o tomam ao próprio gosto. O documentário Orwell: 2+2=5, escrito e dirigido por Raoul Peck (Eu não sou seu negro), é uma salada oceânica na pós-modernidade, atirando para todo lado, tentando compreender a contemporaneidade a partir do livro. Nada de errado até aí, afinal, o que mais há no mundo são políticos, que, embora eleitos (ou supostamente eleitos) democraticamente, agem como ditadores totalitários. Mas o documentário não acha uma saída para além disso.

Valendo-se de uma velha ideia equivocada, mas sempre muito usada, de que Orwell previu o futuro, Peck insiste nisso buscando paralelos entre a vida do escritor, morto seis meses depois de publicar sua obra mais famosa, e a história dos séculos XX e XXI, em especial do neocolonialismo e dos conflitos contemporâneo. 

Orwell retratou mais do que os horrores políticos do totalitarismo – baseado não apenas no Stalinismo, mas, também, outros regimes totalitários –, ele construiu a linguagem usada para descrever esses estados: duplipensar, novilíngua, crime de pensamento. Expressões que perduram, às vezes em sentido deturpado, mas que fazem sucesso especialmente num ambiente virtual, no qual um exibicionismo intelectual raso não é raro. 

Ao invés de análise, histórica, sociológica e artística, se contenta em fazer paralelos superficiais e jogar dados e imagens de guerra (principalmente da Ucrânia, e alguma pouca coisa do genocídio em Gaza) para provar seu ponto da futurologia de Orwell – um ponto que, convenhamos, alegra seu público. 

O filme acerta mais enquanto uma biografia de Orwell, e mira errado enquanto investigação de sua obra. Se o alvo não está certo, tanto faz o acertar ou não. Quando fala de 1984, ou mesmo de A Revolução dos Bichos (também publicado no Brasil com o título mais fiel ao original A Fazenda dos Animais), de 1945, Orwell: 2+2=5 se contenta em mostrar um amontoado de imagens de adaptações dos romances, que são, basicamente, filmes ruins que adaptaram mal os romances. 

Excessivamente didático, e, ainda assim, confuso, o documentário é um desserviço que, muito provavelmente, via gerar cortes minúsculos que farão a alegria de jovens em redes sociais nos próximos anos. E de algum lugar, Orwell ri disso tudo. 

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