18/07/2026
Comédia Drama

A Incrível Eleanor

Eleanor tem 94 anos e, depois de uma perda imensa, se sente completamente solitária. Sem saber como lidar com isso, inventa uma mentira sobre seu passado, que acaba saindo do controle. Na HBO Max.

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A Incrível Eleanor é um filme sobre Holocausto, mas não exatamente. É talvez ainda mais um filme sobre a construção de narrativas no presente e sobre o famoso lugar de fala – embora não use exatamente esses termos. O primeiro longa dirigido pela atriz Scarlett Johansson traz um dupla luminosa como protagonistas: June Squibb, como a personagem-título, e Erin Kellyman, como Nina, uma estudante de jornalismo. 

O roteiro da estreante em cinema Tory Kamen começa mostrando o cotidiano de Eleanor e sua melhor amiga, Bessie (Rita Zohar), que moram juntas num apartamento na Flórida desde que ficaram viúvas. A morte de Bessie, no entanto, obriga a protagonista a ir morar em Nova York, perto da filha, Lisa (Jessica Hecht), que insiste que a mãe deve se mudar para uma casa de repouso, onde terá os cuidados necessários. 

Uma série de eventos inexplicáveis, no entanto, levam Eleanor a contar uma história de sobrevivência no Holocausto no grupo de apoio a sobreviventes. Na realidade, o fato aconteceu com Bessie e seu irmão, mas a protagonista omite esse detalhe. Nina, que participa do encontro, fica encantada com a história, e pede para fazer um artigo sobre Eleanor. Sem saber como reagir, ela toma a história como sua e segue com essa mentira.

O filme questiona não apenas quem tem direito da contar uma narrativa, como qual o peso disso diante do fato de que essa história precisa ser contada. São temas complexos e muito atuais com os quais Johansson lida de forma sincera, por meio de suas personagens bem intencionadas. 

Nina é filha de Roger (Chiwetel Ejiofor), um apresentador de um programa de televisão que faz perfis de nova-iorquinos comuns – Eleanor é fã do programa e do jornalista. Ele e sua filha, no entanto, têm um trauma para lidar, a morte da esposa dele e mãe da garota. Incapazes de conversar sobre ela ou vivenciar o luto, eles parecem estar se afastando.

É Eleanor quem vem ao auxílio de Nina. É preciso aceitar, em primeiro lugar, que a protagonista é, para usar uma gíria estadunidense, uma Karen, com certa empáfia e gosto por dar ordem às pessoas – mas uma Karen de bom coração. E Squibb traz sua naturalidade à personagem que poderia ser odiada diante de tudo que faz, mas conseguimos compreendê-la como uma mulher solitária, pega por uma mentira que achou que não iria longe. A relação entre ela e Nina se torna cada vez mais forte, e é nesse laço que as duas encontram a força para lidar com as perdas.

O filme toma alguns caminhos óbvios, mas, nem por isso, perde sua delicadeza. E Johansson aprendeu algumas coisas com diretoras e diretores com quem trabalhou – como Robert Redford e Sofia Coppola. Ela ainda não tem, é claro, a maturidade e o domínio do ofício, mas foi esperta o bastante para se cercar de profissionais competentes – como é o caso da diretora de fotografia francesa Hélène Louvart (parceira de Karim Aïnouz em diversos filmes, como A Vida Invisível), que constrói imagens com textura como ninguém e, por meio da destreza dela, o filme ganha ainda mais camadas. 

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