A Incrível Eleanor é um filme sobre Holocausto, mas não exatamente. É talvez ainda mais um filme sobre a construção de narrativas no presente e sobre o famoso lugar de fala – embora não use exatamente esses termos. O primeiro longa dirigido pela atriz Scarlett Johansson traz um dupla luminosa como protagonistas: June Squibb, como a personagem-título, e Erin Kellyman, como Nina, uma estudante de jornalismo.
O roteiro da estreante em cinema Tory Kamen começa mostrando o cotidiano de Eleanor e sua melhor amiga, Bessie (Rita Zohar), que moram juntas num apartamento na Flórida desde que ficaram viúvas. A morte de Bessie, no entanto, obriga a protagonista a ir morar em Nova York, perto da filha, Lisa (Jessica Hecht), que insiste que a mãe deve se mudar para uma casa de repouso, onde terá os cuidados necessários.
Uma série de eventos inexplicáveis, no entanto, levam Eleanor a contar uma história de sobrevivência no Holocausto no grupo de apoio a sobreviventes. Na realidade, o fato aconteceu com Bessie e seu irmão, mas a protagonista omite esse detalhe. Nina, que participa do encontro, fica encantada com a história, e pede para fazer um artigo sobre Eleanor. Sem saber como reagir, ela toma a história como sua e segue com essa mentira.
O filme questiona não apenas quem tem direito da contar uma narrativa, como qual o peso disso diante do fato de que essa história precisa ser contada. São temas complexos e muito atuais com os quais Johansson lida de forma sincera, por meio de suas personagens bem intencionadas.
Nina é filha de Roger (Chiwetel Ejiofor), um apresentador de um programa de televisão que faz perfis de nova-iorquinos comuns – Eleanor é fã do programa e do jornalista. Ele e sua filha, no entanto, têm um trauma para lidar, a morte da esposa dele e mãe da garota. Incapazes de conversar sobre ela ou vivenciar o luto, eles parecem estar se afastando.
É Eleanor quem vem ao auxílio de Nina. É preciso aceitar, em primeiro lugar, que a protagonista é, para usar uma gíria estadunidense, uma Karen, com certa empáfia e gosto por dar ordem às pessoas – mas uma Karen de bom coração. E Squibb traz sua naturalidade à personagem que poderia ser odiada diante de tudo que faz, mas conseguimos compreendê-la como uma mulher solitária, pega por uma mentira que achou que não iria longe. A relação entre ela e Nina se torna cada vez mais forte, e é nesse laço que as duas encontram a força para lidar com as perdas.
O filme toma alguns caminhos óbvios, mas, nem por isso, perde sua delicadeza. E Johansson aprendeu algumas coisas com diretoras e diretores com quem trabalhou – como Robert Redford e Sofia Coppola. Ela ainda não tem, é claro, a maturidade e o domínio do ofício, mas foi esperta o bastante para se cercar de profissionais competentes – como é o caso da diretora de fotografia francesa Hélène Louvart (parceira de Karim Aïnouz em diversos filmes, como A Vida Invisível), que constrói imagens com textura como ninguém e, por meio da destreza dela, o filme ganha ainda mais camadas.
