02/07/2026
Drama

Hanami

Pouco depois do nascimento da filha, a mãe de Nana a deixa, emigrando para trabalhar no exterior. A menina vive num mundo entra a fantasia e a realidade na paisagem vulcânica de Cabo Verde. Na Reserva Imovision.

post-ex_7

Grande vencedor da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2024, e premiado nos Festivais de Locarno e Internacional de Chicago, Hanami é o primeiro longa da portuguesa de descendência cabo-verdiana Denise Fernandes que já mostra um absoluto domínio da mise-en-scène e na construção da narrativa. 

A impressionante beleza visual do filme não é gratuita, nem exibicionismo estético, mas uma comunhão com a jornada da protagonista Nana, uma criança vivendo em Cabo Verde, interpretada por Daílma Mendes, na infância, e por Sanaya Andrade, na adolescência. Ela cresceu longe da mãe, Nia (Alice Da Luz), que emigrou pouco depois do nascimento da menina. É sua voz que pontua a narrativa de forma elíptica e poética, sobre uma garota que, doente na infância, descobriu um portal mágico para outro mundo.

Enquanto Fernandes, que assina o roteiro com Telmo Churro, encontra reverberações no realismo, o filme também se leva pelo fantástico. A erupção de um vulcão, por exemplo, um acontecimento indubitavelmente real, é também fonte da poesia imagética e narrativa do filme.

A pequena Nana é de poucas palavras, obediente e amiga de outras crianças, mas seu olhar revela uma melancolia, as dores do crescimento, as dúvidas sobre o mundo adulto e a incompreensão do que está por vir. Qual será seu destino? Fernandes encontra na jovem atriz Daílma Mendes e nas outras crianças os “intérpretes” ideiais para esse tipo de história de observação e liberdade narrativa.  

O título Hanami vem de um ritual japonês de contemplação e apreciação da beleza das cerejeiras ou ameixeiras. A palavra serve também como uma metáfora para o próprio filme que contempla a beleza dessa vida simples e da descoberta do mundo. 

O lugar onde a trama se passa é, também, fundamental. Embora o sonho seja uma palavra central no idioma dessas pessoas, sonhar concretamente não é, exatamente, uma boa ideia, haja vista Nia, que foi em busca de suas aspirações e, quando volta, enfrenta dificuldades, especialmente de reconectar-se com a filha que praticamente nunca conheceu. 

Fernandes conjuga esses fios narrativos de forma muito pungente, muito sóbria, acertando na relação entre o realismo e a fantasia, e encontrando em seu elenco e na poesia a força de uma história, ao mesmo tempo, universal e particular. 

post