Há um sutil parentesco entre Nomadland, o premiado filme de Chloé Zhao, e este segundo longa do diretor Max Walker-Silverson. Ambos retratam um EUA normalmente invisível na propaganda incansável de potência mundial, identificando um coração profundo, fragilizado mas também empenhado em construir novas relações de solidariedade e afeto diante de catástrofes.
Em Depois do Fogo, a tragédia está nos incêndios florestais que varreram uma ampla região do Colorado, devastando as propriedades dos moradores locais. Entre eles, Dusty Fraser (Josh O’Connor) que, perdendo seu rancho, viu-se obrigado a leiloar o gado que lhe restou e a ir morar num trailer num camping mantido pela Agência Federal de Gestão de Emergências.
Sem dinheiro nem crédito - o banco lhe diz que sua terra queimada não serve como garantia, porque permanecerá improdutiva por 10 anos ou mais -, Dusty vagueia pelo território onde viveu toda a sua vida, como à procura de novas raízes. A situação lhe permite reconectar-se com a filha Callie-Rose (a extraordinária Lily LaTorre), resultado do casamento rompido com Ruby (Meghann Fahy), com quem mantém uma relação pacífica.
Rebuilding, o título original do filme, descreve melhor este processo em que o protagonista junta os cacos de sua existência anterior à procura de uma forma de continuar vivendo, num percurso em que é capaz de conectar-se com várias pessoas na mesma situação - como seus vizinhos no camping, que compartilham suas histórias em refeições comuns, à noite.
Num filme que consegue compor suas situações com muitas imagens e linguagem não-verbal, algumas cenas são particularmente icônicas para descrever a precariedade de meios - como o uso coletivo do wifi da biblioteca fechada por pessoas que estacionam seus carros ao seu redor. Este é, inclusive, o caso de Dusty quando vem com a filha, nos dias em que fica com ela, para que ela possa fazer suas lições de casa.
Esta conexão entre pai e filha, que vai se construindo aos poucos, é um dos grandes achados do filme, na medida em que se dá de uma forma gradual, sutil, apoiando-se em gestos e olhares que somam autenticidade. Para isso, conta com um intérprete eficiente como Josh O’Connor, um dos melhores atores da atualidade, enfileirando uma atuação brilhante atrás da outra, como aquelas vistas em A História do Som e La Chimera, para citar algumas. E também com uma revelação como a pequena Lily LaTorre, sem cuja parceria esse eixo central da trama não iria funcionar.
É neste mergulho num país que priva das promessas do velho sonho americano seus próprios cidadãos que a história de Walker-Silverson envereda na busca de um resgate de outra coisa mais velha e preciosa ainda, o humanismo.
