Mais de duas décadas e um monte de bobagens que Quentin Tarantino tem dito e feito separam o lançamento de Kill Bill – Volume 1 (2003) e Kill Bill – Volume 2 (2004) de Kill Bill - The Whole Bloody Affair, que combina os dois filmes (com algumas modificações) e novas cenas. O curioso – e o melhor – é que o épico pós-moderno e sanguinolento passa pelo tempo com sua dignidade e genialidade intactas.
O sangue ainda jorra com gosto, e as cabeças voam com prazer, nesse pastiche de gêneros feito com vigor e sagacidade, além de atuações brilhantes – em especial de Uma Thurman, como a protagonista, mais conhecida como A Noiva, e Lucy Liu, como sua maior rival, O-Ren Ishii, uma matadora que se tornou chefe da máfia no Japão. Tudo ainda é muito icônico, dos figurinos à trilha sonora – Twisted Nerve (mais conhecida como a música do assobio) nunca fez tanto sucesso, nem quando foi originalmente composta para o terror inglês A Morte Tem Cara de Anjo, de Roy Boulting, lançado em 1968.
Combinar os dois filmes permite ao público acessar a ideia original de Tarantino, que queria um longa único. Os 275 minutos (contando os 15 de intervalo) passam voando, pois acontecem coisas demais o tempo todo – talvez seja a vantagem dos filmes hiperativos do cineasta: nunca há tempo para o tédio. Das longas cenas de luta às viagens da Noiva – seja, na picape Pussy Wagon ou em aviões – marcam uma jornada cinematográfica que prima pelo movimento.
A história é mais do que conhecida. Uma mulher, conhecida como Mamba Negra, faz parte de um esquadrão de assassinos. Quando ela resolve sair dele, abandonando o chefe Bill (David Carradine), e se casar com um semidesconhecido, por estar grávida, o seu próprio grupo de, digamos, colegas de trabalho, aparecem no ensaio da cerimônia e matam a todos – ou assim pensam. A protagonista, cujo nome se desconhece, e passa a ser chamada de A Noiva, sobrevive, fica em coma por quatro anos – onde é sistematicamente abusada por clientes de um enfermeiro que cobra para homens poderem estuprá-la – acorda e planeja sua vingança.
Cada capítulo se refere a uma vítima dessa revanche, o que permite ao filme ter pequenos clímax, marcados pela violência – que, de tão exagerada, é estilizada, nem por isso menos impressionante. Impressiona mesmo, por exemplo, o balé de violência quando a Noiva enfrenta centenas de pessoas numa casa de chá, até conseguir ficar cara-a-cara, ou melhor katana-a-katana (afinal, usa-se a espada japonesa) com O-Ren Ishii, numa das cenas mais bonitas do filme, num duelo na neve, na fotografia de Robert Richardson.
No milk-shake de pós-modernidade de Tarantino, tudo é matéria-prima, unindo estilos e tempos que não se encontram e passam como um rolo compressor, transformando tudo no eterno presente da Noiva em busca de vingança para matar Bill. A trilha sonora talvez seja o maior indício disso, juntando desde clássicos dos anos de 1970, muita música de faroeste de Ennio Morricone, a composições originais de RZA. A embalagem toda é sedutora, e resiste ao teste do tempo com muito brio – enfim, um clássico, sem dúvidas.
