A cineasta belga Chantal Akerman é mesmo a cronista dos espaços fechados que dilatam o tempo narrativo. A sobreposição do espaço ao tempo é uma das características da pós-modernidade, e isso fica claro nos filmes da cineasta, como Jeanne Dielman e Eu, Tu, Ele, Ela, que se mostra ainda mais radical nessa característica formal, embora tenha menos da metade de duração da obra-prima de 1975.
Em Eu, Tu, Ele, Ela, Akerman é criadora e criatura, colocando-se ao centro da narrativa como Julie, uma mulher que passa o primeiro terço do filme em seu quarto, um espaço de clausura e experimento, onde troca constantemente de roupas, muda os móveis de lugar, come açúcar. Tornamo-nos sua testemunha, mas também parceiros e parceiras em sua criação.
No segundo segmento, ela pega carona com um caminhoneiro (Niels Arestrup), com quem tem um rápido episódio sexual. Já na parte final do longa, ela recebe a visita de uma mulher que parece ser sua ex-amante, as duas acabam fazendo sexo. Nada disso, no entanto, faz Akerman buscar um sentido de catarse. Seu cinema é o da exasperação, se encontrasse saída para os sufocamentos e agruras da personagem seria fácil demais, e não seria um filme de Chantal Akerman.
Lançado originalmente em 1974, Eu, Tu, Ele, Ela não deixa de ser um filme sobre a criação artística e como a vida real imbrica-se a esse processo. Os dois segmentos em que Julie está com outra pessoa se armam de forma dialética, da crueza com o motorista à delicadeza e paixão com a outra mulher. A cena entre as duas é de poesia e paixão, mostrando o quanto uma deseja a outra e como aquelas duas personagens estão ali juntas, e nada fora daquele quarto interessa.
Mas a vida real sempre entra em cena, e a namorada não pode passar a noite ali. A primeira parte, com a personagem solitária, apresenta-se como a síntese que vem antes da tese e da antítese, obrigando-nos a organizar mentalmente o processo emocional da protagonista que, em certa medida, pode ser a própria diretora.
Ver ou rever um filme tão libertário nesse momento em que as artes encontram certa resistência a isso com a ascensão da direita mundial é lembrar da potência da arte, e de como Akerman é uma grande cineasta. Seu cinema é desafiador e instigante em mesma medida, nos tira o chão, mas dá substrato para nossa própria reconstrução de outra base. Investigando a posição da mulher na sociedade, com uma filmografia que vem de 1967 até sua morte em 2015, a diretora mostra como as lutas femininas são necessárias, e que as vitórias devem ser sempre celebradas, uma a uma.
