02/07/2026
Drama

Narciso

Narciso mora numa casa que abriga outras crianças órfãs, mas sonha com uma vida melhor, ao lado de uma família. Quando um gênio mágico lhe concede seu desejo, o garoto precisa pagar um alto preço, negando-se a si mesmo.

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Em seu novo longa, Narciso, o cineasta Jeferson De retoma uma temática já presente em seu curta Narciso Rap (2004), no qual, por um lance fantasioso, um jovem negro passa a ser visto como branco por brancos e negros. No longa, cujo roteiro é assinado por ele e Cristiane Arenas, o personagem-título é interpretado por Arthur Ferreira, numa atuação marcada pelo silêncio e a interioridade.

O filme começa com sua volta para uma casa onde crianças órfãs são abrigadas, quando, às vésperas de seu aniversário, é “devolvido” por um casal que pensou em adotá-lo. Ele é recebido com carinho e amor por Carmen (Ju Colombo, numa atuação contagiante), a figura materna que cuida das crianças ao lado do irmão, Joaquim (Bukassa Kabengele).

Narciso é um menino de poucas palavras, que diz muito com o olhar, e esse transmite um estado de quem está perdido, sem rumo. Quando ganha uma bola de basquete com supostos poderes mágicos, ele recebe a visita de um gênio, que lhe concede o seu desejo: tornar-se rico, mas, em troca, jamais poderá ver-se refletido no espelho.

Nessa parte fantasiosa do filme (em preto e branco, ao contrário do restante do longa, em cores), ele é filho de um casal rico (Marcelo Serrado e Fernanda Nobre), que o ama muito e o cerca de bens materiais, mas ele não pode sair da mansão. Além disso, eles não o veem como um menino negro.

A premissa é interessante e suscita um discussão pertinente sobre o racismo estrutural brasileiro, mas o roteiro nem sempre dá conta das questões que levanta. Talvez merecesse mais tratamentos, em especial nos diálogos que soam excessivamente didáticos. Numa cena, por exemplo, em que Carmen fala com Joaquim sobre suas dificuldades como mulher negra, os pontos que ela levanta são verdadeiros e válidos, mas a maneira como são expostos fazem todos soarem como óbvios e quase destituídos de verdade, por mais que a excelente atriz se esforce em cena. 

Tem sido esse, para ficarmos na mitologia grega, o calcanhar de Aquiles dos filmes de Jeferson De. Os roteiros parecem não estarem prontos, faltando lapidar diálogos e situações, por mais pertinentes e interessantes que os temas abordados sejam.  

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