Laurent Cantet (1961-2024) foi um cineasta humanista da maior qualidade. Seu filme mais conhecido, o documentário Entre os Muros da Escola, levou a Palma de Ouro em 2008. Mas o olhar afiado do diretor francês incorporava também uma atenção para a precariedade das relações de trabalho (A Agenda, 2003) e, mais recentemente, sobre o efeito tóxico das redes sociais sobre a vida dos jovens (@Arthur Rambo - Ódio nas Redes, 2022).
Essa antena poderosa que ele lançava sobre a contemporaneidade levou-o a conceber o argumento de Enzo, que não chegou a concluir. O filme abriu a seção Quinzena dos Cineastas em Cannes 2025, meses depois da morte precoce de Cantet, de câncer, em 2024. O projeto acabou sendo abraçado por Robin Campillo e Gilles Marchand, que assinam o roteiro final e a direção.
Interpretado pelo estreante Eloy Pohu, Enzo é um adolescente de classe média alta, morador de uma grande casa com piscina na Riviera Francesa, filho de um professor de matemática, Paolo (Pierfrancesco Favino), e uma engenheira, Marion (Élodie Bouchez). Contrariando as expectativas de seu meio social e da família, ele desiste da escola, preferindo trabalhar como ajudante de pedreiro em construções.
Há, portanto, um choque implícito nesta escolha, seja de classe, seja de perspectiva de futuro, e que alimenta o centro dramático, que se ancora nas incertezas de um menino de 16 anos que não sabe direito o que sente, nem o que pensa. Nada anormal para sua idade, mas sua opção tem todo potencial de causar uma desestruturação no seu ambiente - especialmente porque seu irmão mais velho seguiu a rota de vida esperada pelos pais e ele mesmo não consegue explicar seu profundo desinteresse por quase tudo.
Em seu ambiente de trabalho, Enzo também desperta mais perplexidade do que aceitação, já que divide o canteiro de obras com compatriotas mais velhos, de origem mais modesta, que não tiveram acesso ao estudo ou outras oportunidades e também imigrantes ucranianos, como Vlad (Maksym Slivinsky) - que emigrou para a França depois de convocado a uma guerra da qual ele não quer participar.
Apesar das nobres intenções de seu ponto de partida, o filme parece perder-se nas muitas incertezas deste protagonista, cujo comportamento errático ao longo do tempo compromete sua capacidade de despertar maior empatia - em parte, por uma visível inexperiência dramática do intérprete, também cambaleando entre os buracos de um roteiro que também não demonstra encontrar o seu eixo. Por conta disso, apesar de abordar tantos temas candentes, o filme não vai além de uma certa superficialidade seja quando aborda a diferença de classes, a imigração ucraniana e a sexualidade, seja quando explora as contradições da psicologia adolescente num mundo cada vez mais instável, social e economicamente.
Salvam-se mais Favino e Bouchez, como atores experientes, interpretando os pais deste garoto, genuinamente empenhados em procurar salvá-lo de um destino que acreditam arriscado mas esbarrando também em suas próprias limitações. Assim, elabora-se mal um retrato desta contemporaneidade em que Cantet talvez conseguisse injetar mais afeto, intimismo e profundidade.
