02/07/2026
Drama

O Olhar Misterioso do Flamingo

Chile, 1982. Numa isolada cidade mineira, no deserto, no norte do país, a única diversão é o cabaré Alaska, comandado por mulheres trans e travestis. Uma delas é Flamingo, que adotou uma menina abandonada, Lidia, hoje com 11 anos, e que sofre bullying dos meninos locais. O surgimento de uma misteriosa doença entre os homens cria o medo e também boatos que colocam em perigo as artistas do cabaré. Nos cinemas.

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O jovem diretor chileno Diego Céspedes estreou com tudo neste longa, que venceu o prêmio principal da seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025. Trata-se de uma história de época, ambientada em 1982, numa remota cidade de uma região desértica, dedicada à mineração, no norte do Chile.

Dentro de uma paisagem desolada, a única distração dos combalidos trabalhadores locais é o cabaré Alaska, em que travestis e mulheres trans são as artistas, sob a liderança da carismática Mama Boa (Paula Dinamarca). Entre elas, há uma menina, Lidia (Tamara Cortés), órfã abandonada que tem em Flamingo (Matías Catalán) sua figura materna.

Desde cedo, Lidia tem que aprender a defender-se do preconceito da comunidade local, inclusive dos meninos, que a hostilizam e agridem - não sem vigorosa reação de sua família de proteção. 

Neste momento, está se instalando na pequena comunidade isolada uma lenda perigosa. Uma misteriosa doença, ainda sem nome ou descrição, começou a matar alguns habitantes locais e surgem boatos de que seria causada pela simples troca de olhares entre os homens e as moradoras da casa Alaska. Juntam-se assim os componentes do moralismo, da ignorância e de um misticismo desorientado para atribuir às artistas LGBTQIA+ a transmissão da doença que, como sabemos, será em breve conhecida como AIDS.

À parte acompanhar essa insidiosa caça às bruxas que ameaça a própria sobrevivencia do Alaska, o filme segue com carinho a formação dos vínculos afetivos, especialmente entre Flamingo e sua filha adotiva, mas também entre Mama Boa e o velho Clemente (Luis Dubó). Não é uma história que busque grandes revelações, apenas procura retratar o sentimento de resistência de uma pequena comunidade alternativa, combalida pela miséria e muito mais pelo preconceito e a desinformação. Mas não deixa de encontrar seu brilho especialmente nas interpretações dedicadas de Matías Catalán e Paula Dinamarca, como protagonistas de sua própria história, portadoras da coragem de ser quem são.

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