Nem precisa de sobrenome. O título sintético do filme de Antoine Fuqua, Michael, remete imediatamente ao ícone da música pop Michael Jackson (1958-2009), estimulando a intimidade com um dos maiores ídolos de todos os tempos, cuja morte precoce, aos 50 anos, em 2009, somou ainda outra faceta trágica.
As demais facetas trágicas da figura do cantor e compositor - como a dependência de medicamentos fortes (possivelmente causadores de sua morte) e as acusações de abuso sexual contra menores de idade -, tanto quanto o sobrenome, estão ausentes do filme, roteirizado por John Logan, e que sofreu mudanças radicais ao longo de sua produção, também por acordos judiciais envolvendo estas polêmicas. O fato de que o filme tenha sido produzido por familiares - o filho Prince é produtor executivo - e pessoas próximas - como o advogado John Branca, executor do testamento de Michael - certamente reforça este aspecto superprotetor da imagem do protagonista.
Então, a versão que o filme constrói, bastante pasteurizada, gira em torno do aparecimento do Jackson Five,o grupo juvenil de cantores autoritariamente dirigido e empresariado pelo pai, Joseph (Colman Domingo), desde os anos 1960, tendo o caçula Michael (aqui interpretado por Juliano Valdi) aos poucos despontado como o maior talento da família.
A tirania desse pai é um dos poucos aspectos dramáticos não-suavizados na história, a quem é atribuída a crônica insegurança de Michael - agora interpretado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor na vida real. E aí está o aspecto em que o filme vai se esbaldar, tirando proveito da enorme semelhança entre Jaafar e o tio e do inegável apuro da produção para reproduzir números musicais e a dança inigualável do ídolo, levando o público a reviver sucessos como Billie Jean, Thriller, Beat It e Bad - que é onde o filme acaba, deixando no ar a dúvida: será que haverá uma sequência?
Então, o que o filme de Antoine Fuqua procura e faz bem é captar a aura magnética de um artista único, cujo energia o sobrinho reproduz nos mínimos detalhes. Mas se poderá também sentir falta de mais complexidade na composição da personalidade do protagonista, de quem é extirpada a maior parte das contradições, como sua procura de clarear a pele (supostamente para disfarçar o vitiligo), além de não mencionar uma série de personagens importantes da vida dele: a irmã menor, Janet, a protetora e confidente Diana Ross, as amigas Elizabeth Taylor e Brooke Shields.
É certo que muitos poderão contentar-se com este retrato parcial daquele que foi, inegavelmente, um dos maiores ídolos pop entre os anos 1970 e 1990, revolucionando a dança e os clipes com suas invenções. Mas nem mesmo entre os seus familiares, essa versão edulcorada e infantilizada satisfez. A filha de Michael Jackson, Paris, escreveu em suas redes sociais sobre o filme: “Isto é Hollywood, o país dos sonhos. Eles querem te fazer crer que esta é a realidade”.
