Prestes a completar meio século em 2027, Suspiria continua tão impressionante e influente quanto quando foi lançado originalmente. O uso das cores é uma das coisas mais bonitas que Dario Argento fez em sua carreira – em parceria com o diretor de fotografia Luciano Tovoli –, e até hoje copiado à exaustão. É bom lembrar, no entanto, que o Suspiria - A Dança do Medo, do Luca Guadagnino, de 2018, não é um remake, mas uma releitura, que tem seus próprios méritos.
Com roteiro escrito por Argento e sua mulher, a atriz Daria Nicolodi, o filme estabelece uma espécie de gramática do horror ultracolorido que, com suas imagens vibrantes, encapsula o mergulho delirante da protagonista, a estudante de balé estadunidense Suzy Bannion (Jessica Harper), num mundo de incertezas e pavor. O filme começa com sua chegada à prestigiosa escola de dança Tanz Dance Academy, numa noite de muita chuva, mas não permitem que ela entre. Nessa mesma noite, outra aluna foge do lugar, sendo depois brutalmente assassinada.
Depois de conhecer a vice-diretora, madame Blanc (Joan Bennett) e a principal coreógrafa, Miss Tanner (Alida Valli), Suzy é hospedada na escola, mesmo tendo planos de morar em outro lugar. A partir daí, uma série de bizarrices acontecem. Argento e Nicolodi deixam a imaginação voar, sem se preocupar com narrativa ou personagens. A ideia é o choque estético, e o filme faz isso muito bem, criando o horror a partir de sensações de puro medo.
O giallo - primo italiano do slasher – encontra aqui um de seus pontos altos na estética que torna o corpo humano objeto da violência. Ao mesmo tempo, esses corpos são lugares de poder. Na Tanz Dance, as alunas aprendem a ter maior domínio de seus próprios corpos por meio dos movimentos, mas também é ali que seus corpos serão literalmente consumidos. O impacto é mais profundamente visual do que emocional ou intelectual. Argento faz de suas personagens materializações de vítimas e algozes.
O ensaísta do século XVIII Thomas De Quincey escreveu que, como existem as Três Graças, devem existir, também, as Três Senhoras da Dor: a Nossa Senhora das Lágrimas, a Nossa Senhora dos Suspiros e a Nossa Senhora das Trevas. Argento toma emprestado essas ideias e cria um trilogia com essas personagens – além de Suspiria, os filmes são Mansão do Inferno (1980); O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (2007). Com eles, o diretor examina como traumas históricos do passado se manifestam em forma de horror no presente.
