Figura pioneira da Retomada, com seu longa Carlota Joaquina - Princesa do Brazil (1995), Carla Camurati lança-se à exploração das raízes do machismo e da misoginia nas cinco maiores religiões do mundo em seu novo documentário. Afinal, religiões não só formam padrões éticos e morais como invocam para seus preceitos um caráter sagrado, que visa impedir questionamentos e permite a sujeição de um grupo por outros - ou seja, estão na base do patriarcado que impregna os quatro cantos do mundo. Afinal, todas as escrituras foram escritas por homens e afirmadas como “palavras divinas”.
A ideia de igualdade entre os sexos, afinal, está ausente de todas as grandes religiões. No hinduísmo, apesar da diversidade, não faltam discriminações às mulheres, inclusive com preconceitos contra funções naturais, como a menstruação, ganhando a conotação de “impureza” - um aspecto presente também em outras culturas e que nem sempre a ciência consegue eliminar. Entre os budistas, originalmente não era permitida a ordenação de mulheres. E, quando isto foi aceito, as regras monásticas para as mulheres nunca deixaram de marcar uma diferença visando a manter uma inferioridade de condições.
No judaísmo, continuam mantidos os lugares separados para homens e mulheres nas sinagogas, sendo às mulheres proibido rezar a Torah. No Muro das Lamentações, onde até a década de 1920 ambos os sexos rezavam juntos, hoje isto não é mais possível - as tentativas nesse sentido são agressivamente rechaçadas.
No cristianismo, Maria referencia o que deve ser a mulher-modelo, delineada no papel de mãe submissa. Outras figuras femininas, como Eva, são consideradas pecadoras, mais ainda Maria Madalena, erroneamente classificada como prostituta - o que originalmente não fazia parte da Bíblia, mas foi assim conceituado, erradamente, pelo papa Gregório no ano 591. O combate à sexualidade sempre focou mais nas mulheres que, não por acaso, foram as maiores vítimas da Inquisição (75%).
No islamismo, o lugar da mulher é a casa, mas o hijab é originalmente uma recomendação - não uma imposição. Se o Corão não prevê violências abomináveis como a circuncisão feminina - praticada até hoje em alguns lugares da África -, é fato que menciona que o depoimento judicial de uma mulher vale menos e que sua herança é inferior à de um homem.
Depoimentos no filme, como o da monja Cohen, lembram da necessidade de reler os textos sagrados com novos olhos, à luz dos novos tempos, dispensando o que não cabe - o que é rejeitado por fundamentalistas de todos os credos, sempre dispostos a manter ou ressuscitar suas vantagens e dominação. Entrevistas como a da teóloga Ivone Gebara, da historiadora Mary del Priore e dos rabinos Nilton Bonder e Kelita Cohen enriquecem um debate necessário, questionando a rigidez de preceitos que distorcem mentalidades e, certamente, estão na raiz da latente violência contra as mulheres.
