18/07/2026

De forma sensorial e impressionista, o documentário investiga o funcionamento da vida cotidiano dentro do do gigantesco prédio na Avenida São João, em São Paulo. Grande vencedor do É Tudo Verdade de 2025. Nos cinemas.

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Há um fino paradoxo formal na existência de edifício Copan, localizado no número 200 da famosa avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. Seu tamanho gigantesco é imponente e duro, mas as linhas curvas que o compões trazem leveza e movimento. Concebido por Oscar Niemeyer, com projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo, o edifício é o habitat de cerca de 5 mil pessoas, fora as que trabalham no prédio ou nas lojas, bares e restaurantes do seu térreo. 

Grande vencedor do Festival É Tudo Verdade de 2025, o documentário Copan, de Carine Wallauer, se aproxima de maneira muito interessante e particular desse mundo dentro do mundo de São Paulo. A primeira grande sacada do longa é não ser um filme quadrado contando a longa história do edifício – ou seja, coisas que qualquer pessoa poderia ler na Wikipedia. Nem uma espécie de Edifício Master paulistano. O filme é uma construção impressionista de pessoas que moram e transitam por ali, montado com a leveza das curvas arquitetônicas e a densidade do concreto que mantêm o Copan de pé – ou seja, é um filme em sintonia com seu objeto. 

Wallauer tem um olhar aguçado para o material humano que sua câmera observa com curiosidade. A estrutura social que compõe o edifício também não passa batida aqui. Há “os de cima” e “os de baixo”, a alta classe e a classe trabalhadora e, mesmo entre os moradores, não há uniformidade, assim como não há entre o tamanho dos apartamentos. 

É nessa contradição, fincada próxima ao Edifício Itália e à Igreja da Consolação, que está o grande interesse do filme. Wallauer morou no prédio por sete anos, e essa sua experiência, é claro, contribui. Só uma pessoa com intimidade com os corredores e acessos saberia como captar as dinâmicas sociais que se imprimem por ali. 

Com uma belíssima fotografia da própria cineasta (premiada com o troféu da Associação Brasileira de Cinematografia), o longa parece transitar entre uma ficção científica pós-moderna, numa cidade de luzes e contrastes, e uma investigação sociológica sobre o presente do Brasil. Parte dele foi rodada em 2022, próximo às eleições presidenciais, e o filme incorpora sua própria disputa: era o momento das eleições de síndico do prédio e a oportunidade de tirar da cadeira a pessoa que a ocupava há 30 anos. Há, por exemplo, reuniões de condomínio que são, para usar uma gíria corrente, puro suco de Brasil. 

Poderia soar como uma coincidência forçada colocar lado a lado as duas eleições, mas Wallauer dribla isso por colocar, ao centro, os processos democráticos do presente, seja no macro ou micro. Dessa maneira, a narrativa conduz-se por isso, mas, para além dos jogadores dessa disputa, há um visível interesse ainda maior nas figuras que a decidirão. É, claramente, focado e carinhoso o olhar que o filme tem pelos trabalhadoras e trabalhadores do Copan. 

Que o filme consiga retratar bem vidas tão distintas colocadas coletivamente num mesmo endereço é um dos grandes méritos de Copan. Ao final, temos a certeza de ter passado um bom tempo dentro do prédio, conhecendo pessoas e ambientes – o contraste entre os apartamentos é marcante – como num caldeirão que é o Brasil. 

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