02/07/2026
Drama

A Sombra do Meu Pai

Nigéria, 12 de junho de 1993. No dia da primeira eleição presidencial que poderá derrubar uma ditadura militar, Fola e seus dois filhos, Akin e Remi, saem de sua vila em direção a Lagos, onde o pai espera receber um pagamento, atrasado há meses. Nesse dia crucial para a família e para o país, uma série de incidentes mudará a vida dos dois meninos. Nos cinemas.

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Em sua estreia como diretor, Akinola Davies Jr. une da melhor maneira as pontas do pessoal, do social, do político e atinge o universal. Nascido em Londres, de origem nigeriana, Akinola resgata fragmentos da própria memória, num roteiro escrito a quatro mãos com o irmão, Wale Davies, enriquecendo a história com elementos de uma trágica data na história da Nigéria: 12 de junho de 1993, quando se apuram os votos da primeira eleição presidencial do país, governado por uma ditadura militar.

O peso da política, no entanto, aparece aos poucos como determinante na vida de uma pequena família que vive perto da capital, Lagos, sofrendo as consequências da precariedade econômica do país. O pai, Fola (Sope Dirisu, prêmio Gotham de melhor ator), por conta de empregos precários e pagamentos irregulares, vive frequentemente longe dos filhos, Akin (Goodwin Egbo) e Remi (Chibuila Marvellous Egbo). Os dois esperam-no, impacientemente, na primeira sequência do filme, que dá o tom desse tempo suspenso em que a história toda transcorre, um êxito da direção e também da fotografia inspirada de Jermaine Edwards - um estreante na função, que usou o formato 16 mm para obter uma textura granulada que se ajusta perfeitamente a um relato construído entre a memória e o sonho. 

Os dois meninos, aliás, são igualmente estreantes como atores, emprestando uma energia e autenticidade singulares aos seus dois personagens, que transitam não só entre lugares como entre situações, muitas extremamente conflituosas, que eles ainda não têm discernimento nem experiência de vida para compreender. 

O filme é construído dentro do espaço temporal de um dia, em que o pai finalmente decide levar consigo os dois filhos, sozinhos em casa durante o trabalho da mãe, até Lagos, onde Fola espera conseguir receber o pagamento por seu trabalho, atrasado há 6 meses. Nesse trajeto por várias paisagens urbanas e humanas, traduz-se um pouco da identidade de um país pleno de energia e sonhos, permeado de arranjos improvisados, em que as pessoas encontram algumas formas instáveis de sobrevivência, enquanto esperam que as eleições finalmente tragam uma mudança, já que é dada como certa a vitória da oposição.

A passagem de veículos militares carregados de soldados fortemente armados, de semblante duro, não deixa dúvidas de que há uma tensão subjacente no ar - acentuada pelas notícias dos jornais, dando conta de um massacre que se seguiu a um protesto. 

Porém, entre a passagem frustrada de Fola no escritório onde pensava receber seu dinheiro e outras incertezas, há tempo também para que pai e filhos dividam refeições, conversas e até o passeio a uma praia, que enseja uma série de revelações aos filhos. Esta alternância de cenas e climas é carregada ao longo do filme com muito equilíbrio, de maneira a revelar o acerto no tom das interpretações entre este pai e filhos, oferecendo uma miríade de lembranças aptas a compor um denso álbum de recordações. 

É notável a segurança com que o diretor constrói estes climas ao longo do filme, recorrendo muitas vezes apenas às imagens, mais do que aos diálogos, e valendo-se também da maneira certeira como insere os números musicais, eventualmente somente pequenos solos de piano, às vezes meros ruídos e também canções tradicionais revisitadas por novos arranjos, na trilha sonora refinada da dupla Duval Timothy e CJ Mirra. Por tudo isso, A Sombra do Meu Pai acumulou merecidos prêmios, desde sua estreia mundial, na seção Un Certain Regard de Cannes 2025, onde colheu uma Menção Especial, até o Bafta de melhor diretor britânico estreante e dois Gotham, um de diretor revelação, outro de melhor ator para o excepcional Sope Dirisu.

Leia também a entrevista com Akinola Davies Jr, diretor de "A Sombra do Meu Pai"

Leia também a entrevista com Duval Timothy e CJ Mirra, autores da trilha sonora do filme "A Sombra do Meu Pai"

 

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