Num tempo em que o modernismo era a voz dominante na arquitetura brasileira, João Artacho Jurado (1907-1983) foi uma espécie de dissidente. Filho de um anarquista espanhol emigrado para São Paulo e educado em casa, ele foi um autodidata ousado que, junto com o irmão Aurélio, tornou-se empresário da construção, assinando vários prédios conhecidos pelo nome, em São Paulo e Santos: Bretagne, Cinderela, Verde Mar, Enseada, Louvre. Todos eles marcados pelo estilo do arquiteto, misturando formas, estilos e integrando as construções à paisagem da maneira mais bela e funcional.
Artacho Jurado - Sinfonia de um Arquiteto, de Teresa Eça e Pedro Gorski, procura os vestígios deste homem, cujo legado parece restar apenas em seus prédios, bairros e condomínios. Ele não deixou escritos nem filmes, dificultando a tarefa de esclarecer os detalhes de uma trajetória bastante rica e influente, em bom momento sendo objeto de uma reavaliação.
O filme se vale, evidentemente, de diversas entrevistas, tanto de familiares quanto de arquitetos quanto de moradores em apartamentos da lavra de Artacho Jurado, que destacam uma convivência harmoniosa com estes espaços em que a beleza é contemplada mas não sem levar em conta os seres humanos para quem foram projetados. De modo nenhum se tratando, portanto, de uma escravidão à forma que negligenciasse a convivência humana dentro deles.
Trata-se, assim, de um filme que procura detalhar a formação peculiar do arquiteto, que quando jovem trabalhou com letreiros em neon no Rio de Janeiro, passando à construção de pavilhões em feiras, junto com o irmão, uma atividade que a II Guerra terminará por interromper. Findo o conflito, um novo campo se abre com uma nova lei do inquilinato que estimula a construção para venda de imóveis, levando ao surgimento de conjuntos de casas e pequenos prédios, como o Jardim Anhanguera, na Pompéia, e o novo bairro de Cidade Monções.
Segue-se a isso uma onda de verticalização na capital paulista, ensejando a construção de edifícios como o Piauí, em Higienópolis, e o Cinderela - cenário do filme Domésticas, de Nando Olival e Fernando Meirelles. Consciente da importância do marketing, Jurado investiu no teatro televisionado na TV Tupi, que levava o nome de sua construtora, Monções.
Críticas também vieram, sobretudo dos arquitetos, como na revista Acrópole. Criticavam-no por fazer algo mais pop, tido como americanizado, e o CREA esnobava-o como alguém “sem diploma”. Ele nem ligava, assinando suas obras e abrindo uma empresa em seu próprio nome.
O boom das construções, no entanto, sofreu um baque nos anos 1956-1957, com a disparada da inflação no governo Juscelino Kubitschek, empenhado na construção da nova capital, Brasília. Um fenômeno que levou a uma quebradeira de várias empresas como a dele, já que as prestações dos apartamentos vendidos eram fixas.
Se o baque mudou sua trajetória na vida madura, isto não altera o fato de que deixou tantas obras admiráveis, mesmo depois de décadas, como o edifício Bretagne, em Higienópolis, que é tombado e onde o próprio arquiteto tinha um apartamento e costumava trabalhar ouvindo óperas, outra de suas grandes paixões.
