“Pra se fazer um filme sobre circo, o que não pode faltar?,” pergunta o cineasta a uma artista circense. “Não sei, a gente passa por tanta coisa, não tem como responder essa pergunta,” diz ela, meio encabulada diante da câmera. Essa é a alma do documentário Mambembe, uma investigação poético-impressionista sobre um filme que, não feito, ganha vida agora.
No passado, Fabio Meira, ainda na escola de cinema, em Cuba, escreveu um filme sobre uma arte popular. No elenco, imaginava atrizes que também cantassem, como Marilia Pera e Zezé Motta. A história tinha a ver com um engenheiro viajante e três mulheres de circo que ele conheceria. Filmou parte do projeto, que acabou tendo de ser abandonado.
Quase duas décadas e o sucesso de Tia Virgínia depois, ele retoma o filme e transita numa linha fina entre documentário e ficção, numa construção delicada que destaca o universo feminino no meio circense. O que guia o longa é a busca pela ideia de retomar o que foi deixado incompleto, mas com a abertura para se tornar novo.
O sentido de uma nostalgia doce se impregna na forma, de maneira que tanto Meira quanto seus entrevistados e entrevistadas olham para o passado, mas enxergam o presente: o filme que está sendo feito, e a vida deles e delas nesse momento. São pessoas simples de imenso talento e carisma que ganham papéis ficcionais na encenação do longa, ao lado dos atores profissionais Murilo Grossi e Dandara Guerra.
Essa organização da narrativa traz à tona a percepção da encenação, da ideia do espetáculo. Do circo ao cinema, que nasceu popular, e se elitizou com o tempo, e tenta resgatar suas origens. E, como mostrou em Tia Virgínia e Duas Irenes, Meira tem uma percepção aguçada para as personagens femininas, dando aqui o proscênio a mulheres marcantes, retratadas com ternura e destacando a força e a arte delas.
“Pra se fazer um filme sobre circo, o que não pode faltar?,” pergunta o cineasta a outra artista circense. “Palhaço não pode faltar”, e segue contando sobre quando fugiu com o palhaço do primeiro filme que conheceu, e mostra uma foto preto e branco dele. São histórias como essa, que vão entrando na narrativa pelas beiradas, que encantam. A sensibilidade e a escuta de Meira permite que Mambembe seja um filme rico de vidas e memórias, e que vibra com amor pela arte e pelas pessoas.
