20/08/2026
Drama

Mirrors Nº 3

Viajando com o namorado num carro, uma estudante sobrevive a um grave acidente de carro. É acolhida a casa de uma mulher que viu o desastre e integra-se à rotina de uma família que esconde uma grande dor. Nos cinemas.

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O cinema do alemão Christian Petzold é povoado por fantasmas vivos, personagens cujas vidas chegaram a um limite, e, assim, vagam pelo mundo sem rumo, seguindo o fluxo sem muita iniciativa. Possivelmente, nenhum filme retratou isso de maneira tão escancarada como seu Mirrors Nº 3, cujo título vem da composição homônima de Ravel, cara ao filme. 

Petzold, que também assina o roteiro, mostra-se num dos momentos altos de sua carreira construída desde o final dos anos de 1980. Tornando-se mais econômico a cada filme, o diretor não chega a um minimalismo bressoniano, mas trabalha na chave da contenção e, com parcos 86 minutos (poderiam ser mais), ele dá conta das complexidades de uma teia de relacionamentos, deslocamentos e reconstruções numa maneira em que a narrativa sempre caminha por vias inesperadas. Cada nova curva é uma surpresa que traz uma nova camada de compreensão do drama daquelas pessoas. 

Laura (Paula Beer) é a primeira peça desse quebra-cabeças que começa num tom que parece apressado. Aos poucos, tudo entra nos eixos depois de um acidente que resulta na morte de seu namorado, que dirigia um carro conversível ao lado dela. Ferida, ela é resgatada por Betty (Barbara Auer), uma mulher que vive numa casa próxima ao local do acidente e pintava a cerca do seu quintal naquele momento. Ela é quem corre a socorrer Laura, que pede para ficar em sua casa.

As duas mulheres trazem elementos em suas vidas que são revelados aos poucos. O passado de Laura é obscuro, e Betty nunca lhe pergunta de onde veio ou quem é, apenas a acolhe em sua casa, o que é uma surpresa para seu marido, Richard (Matthias Brandt), e seu filho, Max (Enno Trebs), que são donos de uma oficina mecânica. A bem da verdade, a existência deles também é uma surpresa para Laura – e o público também. 

Com esses poucos personagens, Petzold arma uma narrativa de idas e vindas reais e simbólicas, passando por caminhos já traçados ou evitando pequenas estradas de lembranças traumáticas – como aquela onde aconteceu o acidente com Laura. O diretor parece estar se divertindo, embora o filme não seja uma comédia, em trazer a cada momento elementos inesperados que complexificam ainda mais a visão que formamos dessas personagens. 

Mesmo se organizando com surpresas, o que menos interessa em Mirrors Nº 3 são essas descobertas. O que é mais estimado por Petzold são as consequências desses momentos. A relação de amizade entre Laura e Betty tem um tom maternal, ou talvez de sororidade, mas, de qualquer forma, é marcada por uma codependência crescente, que, aparentemente, não é tóxica ou doentia – mas toda codependência, mais cedo ou mais tarde, cairá nessa teia, e filme sabe disso. 

Sem se interessar em chegar a conclusões, o longa se firma a partir de suas observações, de como a câmera flagra essas personagens em seus momentos de solidão, quando parecem largadas em si mesmas. É daí que vem a potência do filme. Uma última nota: tornou-se tradição no cinema de Petzold uma música marcante nos seus filmes. Foi assim no final de Trânsito, com Road to Nowhere, do Talking Heads; e In My Mind, da banda austríaca Wallners, em Afire. Aqui, é a vez do clássico The Night, do Frankie Valli & The Four Seasons, tocada duas vezes num momento-chave.

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