02/07/2026
Drama

Nós Acreditamos em Vocês

Quase em tempo real, o longa acompanha Alice Piron diante de uma juíza para provar que seu ex-marido e pai de seus filhos não deve ter qualquer contato com eles - para o bem das crianças. Nos cinemas.

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A fina ironia do título Nós acreditamos em vocês, do casal belga Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, não passa despercebida. O “nós” é a justiça e o “vocês” é uma mãe e a sua filha adolescente e o filho pré-adolescente tentando evitar qualquer tipo de contato com o pai abusivo. O longa é uma espécie de drama de chambre, cuja maior parte se passa na sala de uma juíza – não é uma grande sala de tribunal, é um escritório pequeno com uma parede de vidro pela qual entra luz natural, e, ainda assim, é claustrofóbico diante das revelações que vêm à tona.

O filme começa com Alice Piron (Myriem Akheddiou, numa interpretação marcante, que merecia mais reconhecimento) lidando com a birra do filho caçula Etienne (Ulysse Goffin) que, na rua, se recusa a seguir com ela. Seja lá aonde vão, o garoto não quer ir. Já a filha mais velha, Lila (Adèle Pinckaers), repreende a mãe, mas tenta se afastar da situação também. Na rua, ele tem um comportamento, aparentemente, reprovável, o que faz Alice parecer uma mulher e mãe péssima – tanto por não educar seu filho como por não o controlar. Mas o desenrolar da história fará qualquer pessoa que tenha pensado assim se sentir culpada. 

Após a chegada ao tribunal, um prédio de feições arrojadas e pós-modernas, tudo se dá quase em tempo real. Mãe e filhos passam pela inspeção de praxe, e descobrem uma pequena faca no bolso do garoto. Alguém pode pensar: "que garoto rebelde!" – e, novamente, esse alguém irá se envergonhar quando souber os reais motivos. 

Devillers, que escreve e dirige com o marido, é uma profissional do sistema de saúde que traz sua experiência para o filme – e isso o serve de forma contundente. É difícil não entrar em detalhes, mas também é necessário evitar comentar muito, não exatamente pelo suposto, spoiler, mas pelo impacto emocional no público que as revelações trazem à tona. 

Alice fica na sala da juíza (Natali Broods, também excelente em cena), ao lado de sua advogada (Alisa Laub), seu ex-marido, Goossens (Laurent Capelluto, muito bem num papel difícil), a advogada dele (Marion de Nanteuil) e de um advogado (Mounir Ben-Naoum) determinado pela promotoria pública para defender os interesses dos filhos. O advogado e as advogadas são interpretado e interpretadas por profissionais reais. 

O pai não vê as crianças há anos – por ordem da justiça – mas agora quer ter direito da guarda compartilhada, mesmo que Alice não queira ceder e os filhos não queiram a companhia do pai. Não é difícil imaginar o motivo desse afastamento legal, mas, novamente, são os detalhes que assustam e impressionam. 

Alice é a última a dar depoimento, e seu monólogo é feito de forma incisiva, sem qualquer senso de sensacionalismo, graças à atuação de Akheddiou e à sobriedade com que sua fala é filmada. Antes disso, no entanto, a câmera já mostra sua predileção por ela. Closes no rosto da personagem demonstram toda sua reação às falas do ex-marido e advogados. Ela não pode rebater enquanto os demais depõem, mas suas reações já dizem tudo. 

Devillers e Dufeys filmam tudo de maneira muito austera, sem qualquer firula formal, e isso traz força ao longa,  dirigido por essa espécie de “herdeiros” do cinema social de outra dupla belga, Jean-Pierre e Luc Dardenne. Na verdade, esse novo filme é mais eficiente do que as últimas obras dos irmãos. A porrada que Nós acreditamos em vocês defere dói mais do que se houvesse pirotecnias e malabarismos cinematográficos para trazer emoções e sentimentos à tona. Menos, aqui, é mais – dolorosamente mais. 

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