Focalizando o violonista e compositor paulistano, que acaba de completar 80 anos, Toquinho - Encontros e um Violão, de Erica Bernardini, é um documentário amistoso sobre uma figura de inegável importância na música brasileira - não fosse por outra coisa, pela sua duradoura parceria de quase 11 anos com o poeta e compositor Vinicius de Moraes.
Colocando como espinha dorsal uma longa entrevista com o afável músico, o filme tem o mérito de destacar detalhes importantes, e talvez nem sempre conhecidos, de uma trajetória que começou numa pacata infância no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, numa família de descendentes de italianos, os Pecci, e uma ligação musical inequívoca. Filho de mãe violinista, o pequeno Antônio também logo se interessou pelas cordas. Aluno do professor Paulinho Nogueira, revelou uma precoce intuição natural, que o levou a iniciar uma carreira profissional aos 17 anos, tocando em clubes e festas.
As ligações pessoais, como a amizade desde a adolescência com Chico Buarque de Holanda - que então morava em São Paulo - e o sucesso também precoce de composições como Que Maravilha!, parceria com Jorge Ben, lançado em 1969, selaram uma carreira que se desdobraria em muitos episódios marcantes. Alguns deles na Itália, onde foi encontrar-se com Chico Buarque no final dos anos 1960, ficou morando lá e o acompanhou numa turnê com a cantora Josephine Baker. E também nesse país conheceu Vinicius, que estava lá para gravar um disco.
A partir desse encontro, Vinicius o convidou para acompanhá-lo numa turnê na Argentina, que deflagrou a parceria de quase 11 anos, mais de 100 músicas e 30 discos. Desse encontro luminoso, surgiram composições como Tarde em Itapoã, Na Tonga da Mironga do Kabuletê, Regra Três, Sei Lá e tantas outras que embalaram a sensibilidade de gerações diferentes.
Com um estilo suave, Toquinho tem essa característica de ter a seu crédito alguns desses sucessos que atravessam épocas e modismos. Caso de Que Maravilha! e mais ainda de Aquarela (1983), que teve a mão de Vinicius, Toquinho e dos italianos Maurizio Fabrizio e Guido Morra, cuja sobrevivência é realmente espantosa, inclusive entre as crianças - embora ela não fosse, originalmente, uma canção infantil.
Várias entrevistas pontuam o filme, caso de Eduardo Gudin, Ivan Lins, Carlinhos Vergueiro, Jane Duboc, Amilson Godoy, Mutinho, Ivani Sabino, Andreas Kisser e outros, que destacam as qualidades musicais do protagonista e também outras de suas paixões - como o futebol, comentado pelo jogador Roberto Rivellino, e a sinuca, pelo campeão mundial Igor Figueiredo.
Discreto na participação política, apesar de ter vivido a ditadura militar, Toquinho comenta as durezas do período en passant, ao falar do desaparecimento do músico Francisco Tenório Jr., sequestrado e morto pela repressão argentina durante uma turnê em 1976, e da censura. Mas o filme não entra em nenhum momento na mais forte polêmica política que envolveu o músico, em 2018, quando elogiou o ex-juiz e ministro da justiça do governo Bolsonaro, Sergio Moro, evitando, dois anos depois, colocar-se como pró-Bolsonaro ou pró-Lula.
