Vinte anos depois de ter-se radicado no México, Luis Buñuel voltou à Espanha para filmar Viridiana, que venceria a Palma de Ouro em Cannes em 1961. Surpreendentemente inscrito naquela competição sem que as autoridades do país o assistissem previamente, apesar das credenciais oposicionistas inequívocas do diretor, o filme provocou escândalo e protestos do governo franquista, que tentou proibi-lo de circular. Só o conseguiu mesmo na própria Espanha, no vizinho Portugal, também dominado então por um regime ditatorial, e na Itália, onde o Vaticano declarou o filme “sacrílego e blasfemo”.
Toda essa repercussão certamente agradou, e muito, ao próprio Buñuel, que injetou em Viridiana toda sua carga de cinismo anticlerical, antipatriarcal e crítico da burguesia e do moralismo hipócrita que se escondia por trás da religião instituída - na Espanha, o catolicismo ultraconservador que deu sustentação ao golpe e aos crimes de Francisco Franco.
Na história da noviça Viridiana (Silvia Pinal), que retorna à casa do seu tio rico e protetor, D. Jaime (Fernando Rey), apenas para ver-se alvo de uma paixão incestuosa, o diretor injeta todo seu manual de fetiches, pontuando suas cenas com closes de buracos de fechaduras, pés, pernas, um sapato de cetim, um vestido de noiva, aos quais contrapõe a coroa de espinhos, o crucifixo e a camisola de algodão grosso com os quais a noviça tenta, sem sucesso, deter o desejo, próprio e alheio.
Nesta visão ácida e mesmo um tanto niilista do mundo, o conflito que se estabelece sempre é entre as pulsões humanas e a moral construída, seja a partir das convenções ou da religião, tudo isso pontuado pela presença da morte, que espia os pecadores, contritos ou não.
Contra essa realidade cruel, a noviça Viridiana tem pouco repertório, já que viveu confinada ao convento. A visita ao tio, solicitada por ele antes que ela cumpra seus votos definitivos, tornando-se freira, é o primeiro mergulho de cabeça na vida real de Viridiana - e sua primeira oportunidade de tomar suas próprias decisões. Mesmo longe do convento, ela se apega ao que aprendeu como caridade incondicional, abrigando na ampla casa do tio um grande grupo de pobres e desvalidos, cujos excessos, numa noite em que são entregues a si mesmos, dará a Buñuel a oportunidade de encenar uma réplica transgressora da Santa Ceia, o banquete dos mendigos devassos, cuja carga de provocação não escapou, certamente, às intenções do ousado diretor.
No roteiro, assinado em parceria entre o próprio Buñuel e Julio Alejandro, a partir do romance Halma, de Benito Pérez Galdóz, desmonta-se, pedra por pedra, a fé incondicional na caridade e na bondade cega em relação aos oprimidos, que Buñuel humaniza também, não os desprovendo de defeitos, no limite da caricatura. Afinal, Buñuel era um cínico convicto e nada idealista em se tratando da natureza humana.
Visto mais de seis décadas depois, numa cópia lindamente restaurada, Viridiana pode ainda ser visto como uma metáfora da própria Espanha da época. A inocência da noviça, nesse contexto, pode ser interpretada como uma forma de ignorância, baseada numa religião atrasada e que não resiste ao menor confronto com a realidade fora dos muros do convento, diante da qual o moralismo e a hipocrisia que o sustenta não têm escolha senão cair em pedaços. O que seria um espelho cru demais para a Espanha franquista encarar naqueles dias.
Há quem possa preferir filmes que o diretor realizou depois, caso dos geniais O Anjo Exterminador (1962), A Bela da Tarde (1967), O Discreto Charme da Burguesia (1972) e o derradeiro, Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977), em que ele injetou, exceto em A Bela da Tarde, pitadas mais generosas de humor, sem perder a acidez. Mas Viridiana, certamente, inclui também essa perícia no manejo de um estilo que, com muita razão, mereceu assumir o nome do diretor, buñueliano, demonstração de um estilo e originalidade únicos.
