Grande vencedor do Festival de Tiradentes, como melhor filme da mostra Olhos Livres e também pelo júri popular, o documentário Anistia 79, de Anita Leandro, tem o mérito de trazer à luz um material da maior importância para uma rediscussão dentro da história brasileira do verdadeiro significado da palavra “anistia”.
Nos anos 1970, a luta por anistia significava trazer de volta ao Brasil inúmeros presos políticos, que tinham se exilado em várias partes do mundo, particularmente na Europa, depois de atingidos pela repressão da ditadura militar. Dentro dessa mobilização, inseriu-se a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979.
Feitas por um jovem exilado, Hamilton Lopes dos Santos, imagens dos depoimentos trazidos àquele evento permaneceram guardadas por cerca de 40 anos, o que permite que sua divulgação neste filme tenha um sabor de resgate - ainda mais porque diversos personagens ali registrados já morreram.
Uma cópia desse material foi encontrada por Anita Leandro em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, especializada em questões políticas da América Latina. Mesmo sem som e em condições precárias de conservação, os registros revelam um momento fundamental ao entendimento do processo histórico que levou à luta pela anistia e à redemocratização do Brasil, após o golpe militar de 1964.
As condições desta filmagem foram igualmente excepcionais. Exilado em Paris durante a ditadura, Hamilton Lopes dos Santos reuniu uma pequena equipe e viajou até Roma para registrar a Conferência. Sem dinheiro ou experiência em cinema, Hamilton alugou uma câmera e filmou o encontro durante três dias, movido pelo desejo de deixar um registro daquele momento para as gerações futuras.
Entre as inúmeras denúncias enumeradas no filme está a tortura e morte de Eduardo Leite, conhecido como “Bacuri”, a partir do testemunho de sua mulher, Denise Crispim, que foi igualmente torturada como presa política. Casos como esses, incluindo desaparecimentos, ao serem levados a fóruns internacionais, tiveram importância essencial para a criação, no Brasil, dos diversos comitês de anistia, que finalmente obtiveram a promulgação da lei que, em 1979, permitiu a volta de inúmeros exilados e o começo de um processo de redemocratização que só seria completado em 1985, com a volta das eleições diretas que deram fim aos 21 anos do período de exceção.
A visão de inúmeros militantes, como Francisco Julião, Gregório Bezerra, Luís Travassos e tantos outros personagens fundamentais dessa história permite não só resgatar memórias daquele período como fazer uma comparação do próprio significado da palavra “anistia” - vilipendiada, no contexto atual, como a busca de uma forma de impunidade a notórios criminosos contra a democracia tão sofridamente reinstituída no país 40 anos atrás.
