Não é preciso ser fã da banda para entrar na vibe do documentário Oasis: Don’t Look Back in Anger (obviamente, haters gonna hate, mas eles nem deveriam estar no cinema vendo o filme). Tudo é feito com tanto empenho, que é difícil não se empolgar com o reencontro dos irmãos Noel e Liam Gallagher, numa turnê em 2025, depois de cerca de 15 anos que ficaram sem se falar.
O longa começa exatamente com imagens do concerto Rock en Seine Festival, quando a dupla se desentendeu nos bastidores, nem subiu ao palco, e o público é avisado de que não haveria show. Ninguém entendeu nada. E não é o objetivo do doc de Dylan Southern e Will Lovelace (que já fizeram um documentário sobre a banda Blur, rival do Oasis), que, quase como uma estratégia de RP, celebra o retorno da banda aos palcos no ano passado, e a reunião entre os irmãos, que, aparentemente, deixaram as desavenças para trás.
As imagens dos shows – que inclui São Paulo – se alternam com uma entrevista inédita com os dois, que estão muito bem comportados, e depoimentos de fãs falando sobre a expectativa das apresentações e de seu amor pela banda. São histórias que seguem os padrões esperados de devoção e ansiedade diante da possibilidade de ver os ídolos no palco – alguns os veem pela primeira vez ao vivo. Claramente, o filme foi finalizado antes da Copa deste ano, e não incluiu como Wonderwall se tornou uma espécie de hino extraoficial da seleção da Inglaterra.
O que mais impressiona é a montagem assinada por George Cragg e Martina Zamolo, que, primeiro segue uma ordem cronológica, começando com ensaios e uma apresentação histórica em Cardiff, depois segue cidades conforme o tour, até que embaralha tudo. Trechos de música começam num show, trazem a metade em outro e terminam num terceiro ou quarto lugar. A famosa coreografia do público da banda, conhecida como Poznań (o nome é uma referência à cidade polonesa onde a tradição começou, popularizada pelos torcedores do Lech Poznań), por exemplo, conta com partes de diversos concertos ao redor do mundo. E é isso que faz do documentário uma espécie de comemoração que reforça a posição do Oasis como um epicentro de uma cultura britânica dos anos de 1990.
Quanto aos irmãos, na entrevista, é interessante ver a interação entre eles e as diferenças parecem ter ficado no passado – se não ficaram, eles são dois excelentes atores. E, embora suas falas não tragam novidades, elas apontam uma cadência na montagem, ou, em última instância, a falta de coragem de fazer um filme apenas com imagens do concerto, o que seria algo mais radical mas não cumpriria a obrigação de aproximar os fãs ainda mais de seus ídolos.
Há cenas bastante bonitas, como o final da apresentação em Cardiff, olhos marejados por todas as cidades, e o show de fogos de artificio no Allianz Parque (que hoje tem outro nome). No fundo, é claramente uma exaltação à nostalgia dos anos de 1990 e, em especial, para o público inglês, de uma Inglaterra que não existe mais (pós-Brexit, pós-Covid, e ascensão da extrema direita na Europa). Para o restante do mundo, são dois irmãos que deixaram as desavenças de lado em nome de sua arte – e, também, do enorme dinheiro que iriam faturar nos shows.
