O cineasta italiano Franco Zeffirelli conhece bem e é um apaixonado pela música lírica. Ao longo de sua carreira, dirigiu várias óperas para a TV como Carmen, Pagliacci, Don Carlo, Tosca, Otello, e teve o privilégio de dirigir a diva Maria Callas, de quem era amigo pessoal, em 1964 numa encenação no Covent Garden, em Londres. Em seu filme mais recente, Callas Forever, o diretor de Romeu e Julieta recria de forma ficcional os últimos dias de vida da cantora, valendo-se de lembranças de conversas que manteve com ela ao longo de sua vida. A história contada por Zeffirelli nunca aconteceu - quem sabe até poderia ter acontecido ou quase aconteceu - mas não deixa de ser uma curiosa homenagem a uma das maiores cantoras líricas de todos os tempos. Os figurinos são belíssimos, a escolha do elenco acertada e os números musicais muito bem produzidos e executados. E, o melhor de tudo, sempre ouvimos a voz da própria Callas eternizada em gravações importantes. Como sempre ocorre nos filmes de Zeffirelli, tudo é muito limpo, bem encenado, mas sem nenhum vôo mais audacioso, num formato muito a gosto do público de TV. O ator Jeremy Irons é Larry Kelly, um produtor de rock quarentão que, no passado, produziu recitais de Maria Callas, incluindo um no Japão que acabou se tornando o estopim para que ela se refugiasse em Paris, evitando novas aparições públicas. A diva percebeu que sua voz não era mais a mesma e poupou-se de novas apresentações, vivendo praticamente reclusa. Numa turnê de uma banda de rock por Paris, Larry decide procurar a amiga para propor-lhe a volta aos palcos com a encenação de Carmen, de Bizet. Callas, interpretada por Fanny Ardant - toujours belle - resiste, mas acaba convencida quando o produtor lhe explica seu plano: dublar sua voz utilizando as gravações mais perfeitas. Com uma boa sincronia, o público não perceberá o truque. A volta aos palcos acontece em grande estilo, mas o engodo atormenta a cantora e ameaça frustrar a continuidade do projeto. Temperamental, Callas ameaça novamente se esconder. Para o produtor, as dores de cabeça não param aí. Gay assumido, quando chegou a Paris conheceu um jovem pintor, por quem está apaixonado. Mas a dedicação ao projeto da amiga também ameaça seu relacionamento amoroso. Bem ao estilo asséptico de Zeffirelli, os dois amantes não chegam a trocar nem um aperto de mão na frente das câmeras. Por essa falta de intimidade, o romance de ambos nunca convence, além de constituir um elemento completamente desnecessário na trama.
