Com seu intenso e sofrido Em Nome de Deus, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza/2002, o ator-diretor escocês Peter Mullan provou que é um cineasta da mesma têmpera do inglês Ken Loach. Mullan mostrou-se capaz de um cinema humano, que transpira um enorme amor por seus personagens da primeira à última cena, sem extrair um milímetro da força da história que está pretendendo contar.
E que história - o pior é que é real. Ambientado em 1964, na Irlanda, o filme acompanha a trajetória de um grupo de moças que, por terem sido violentadas, ou se tornado mães solteiras ou incorrido em qualquer atitude considerada pecaminosa pela família, são entregues ao convento de Santa Maria Madalena, para sua "recuperação". É uma mistura de prisão medieval com quartel de fuzileiros navais, com um toque de hospício pré-Ronald Laing (o pai da antipsiquiatria). Somam-se maus tratos físicos brutais, com espancamentos constantes àquelas que se rebelam pelo simples fato de estar ali - afinal, nenhuma delas é criminosa. Mas a filosofia do lugar é submeter as infiéis, até quebrar toda a sua vontade de se afirmar como pessoas, terminando por desistirem até de fugir, já que os familiares as reenviam para o suplício e o resto da comunidade as vê como párias. O próprio Mullan faz uma ponta, no papel de um pai brutal que devolve a filha fujona às freiras, debaixo de socos e pontapés.
Além da violência física e da lavagem cerebral pelo trabalho físico intenso - as freiras mantinham lavanderias, onde as internas trabalhavam de sol a sol -, as moças são, ainda, submetidas a rituais constantes de humilhação. Num deles, são vistas todas nuas, com duas freiras avaliando seus atributos físicos - a freira mais velha indica as "vencedoras" de um concurso em que ela julga qual a que tem o maior seio, o maior traseiro, e os menores dotes físicos, também.
Noutra cena, o diretor faz uma referência ao abuso sexual praticado por padres - um tema que ganhou os jornais em todo o mundo recentemente - ao mostrar uma interna do convento, de baixa condição mental, sendo coagida pelo capelão a fazer-lhe sexo oral. O Papa João Paulo II e a Igreja Católica mais conservadora certamente não vão gostar deste retrato pintado por Mullan - que tem o peso da denúncia, já que instituições deste tipo existiram realmente na Irlanda, até 1996. As histórias das pessoas do filme são todas reais ou baseadas em depoimentos verdadeiros. Há inclusive uma ex-freira no elenco, que faz um pequeno papel.
Com certeza, Em Nome de Deus entusiasma. É um filme humanista, sobre a inquebrantável vontade do ser humano de ser livre, sem um pingo de pieguice. O elenco de atrizes é todo magnífico, uma orquestra afinada em que Mullan confirma seu talento como verdadeiro violinista das maiores e melhores emoções.
