26/06/2026

Hollywood vai à guerra contra Bush

Somadas, as bombas despejadas pelos Estados Unidos no Vietnã superaram todas as lançadas durante a II Guerra Mundial. Na luta contra o terrorismo, no Afeganistão, muitas vítimas civis estavam no caminho das modernas armas americanas. Como parece ter um gosto especial por reprises, o presidente George Bush dá sinais de pretender reiniciar os ataques ao Iraque para concluir a tarefa inacabada de seu pai, durante a Guerra do Golfo (1991): derrubar o regime de Saddam Hussein.

Mas, se a movimentação diplomática e militar já é intensa na região, a ação de diretores, atores e produtores de Hollywood e de todo o mundo não é menos impressionante. Contrárias à guerra, 100 celebridades assinaram uma carta enviada ao presidente George W. Bush. Entre elas, Kim Basinger, Matt Damon, Laurence Fishburne, Ethan Hawke, Uma Thurman, Alec Baldwin, Tim Robbins, Barbra Streisand, Samuel L. Jackson, Jessica Lange e Martin Sheen, que interpreta o presidente da América no seriado de televisão The West Wing.

Sheen já foi preso 70 vezes por protestos políticos. O mais recente foi em 2000, depois de invadir a base de Vandenberg, em uma manifestação contra o programa militar "Guerra nas Estrelas", que leva a defesa para o espaço. O ator liderou, em janeiro, uma manifestação de 5 mil pessoas, na cidade de Los Angeles, contra a uma nova guerra no Golfo Pérsico. "Estamos dizendo ao mundo que somos americanos patriotas mas que não apoiamos uma guerra dos EUA contra o Iraque", declarou.

Em outubro de 2002, Sean Penn pagou 56 mil dólares para publicar um anúncio no jornal Washington Post, no qual acusou o presidente George W. Bush de sufocar debates sobre o Iraque e ameaçar as liberdades civis. "As ações desse governo também são minhas", afirmou Penn à Variety durante a visita de três dias que fez à capital iraquiana. "E se minhas mãos vão ficar manchadas de sangue, não quero que ele fique invisível. Eu quis vir ao Iraque para ver os rostos dos iraquianos - crianças, adultos, diplomatas, todos que importam - e voltar para casa com impressões que não me deixarão sentir como se eu não tivesse nada a ver com isso", completou.

VOLTA AO MACARTHISMO? - Penn, aliás, foi o primeiro a sofrer retaliações profissionais por seu ativismo político. O produtor Steve Bing dispensou-o do filme Why Men Shouldn´t Marry, onde o ator seria o protagonista. Em janeiro, os advogados de Bing alegaram: "Se há um preço a ser pago pelo comportamento do senhor Penn por sua preocupação com assuntos políticos, esse preço deve ser pago por ele e não por seu empregador em potencial". A declaração acabou fazendo parte de uma ação indenizatória movida por Penn contra o produtor, onde ele pede uma compensação de 10 milhões de dólares. O ator alega, por sua vez, que Bing está retomando "a era obscura da lista negra de Hollywood". Ele sabe do que fala. Afinal, seu pai, o roteirista e diretor Leo Penn, foi vítima das listas negras do macarthismo, que o impediram de trabalhar nos anos 50.

O também ator Dustin Hoffman afirmou durante a premiação da revista Empire que acredita "que essa guerra é pelo mesmo motivo que todas as outras guerras: hegemonia, dinheiro, poder e petróleo". O diretor Peter Sellars também declarou ao jornal britânico The Guardian, no começo de fevereiro, que a "democracia é algo que não funciona sob a mira de uma arma. Somália, Haiti, Afeganistão têm sido um sangrento caminho de destruição de nações. O histórico deveria sugerir que este não é o caminho a seguir". Martin Scorsese, indicado ao Oscar de melhor diretor por Gangues de Nova York, disse à rádio BBC ter esperanças que o conflito se resolva diplomaticamente ao invés de exterminar um grande número de civis. "Há muitos americanos que pensam como eu, que boa parte desta conversa sobre guerra é econômica. Tudo está parcialmente ligado ao petróleo."

Em artigo publicado no diário Los Angeles Times, o ator e diretor Robert Redford escreveu que "a Casa Branca fala muito acerca da questão militar no Oriente Médio, mas silencia quando o assunto é a dependência dos Estados Unidos em relação aos combustíveis fósseis (...) Acabar com essa dependência deveria ser entendida como a política mais patriótica com a qual poderíamos nos comprometer".

GRANADAS PARA MADONNA - Bush tem mesmo sido alvo de várias críticas, não apenas por parte dos artistas de Hollywood. A cantora Madonna, que fez uma ponta em OO7 - Um Novo Dia para Morrer, promete realizar a maior crítica pública a George W. Bush, através do clipe da música American Life. Segundo a assessora de imprensa da popstar, Liz Rosenberg, o vídeo vai "expressar uma visão panorâmica da cultura americana e da possível guerra sob a perspectiva de uma super-heroína, interpretada por Madonna". A cantora já gravou em Los Angeles algumas seqüências deste clipe onde, segundo relatos, apareceria em trajes militares e manejando granadas. Há rumores de que seriam incluídas também cenas com cidadãos iraquianos feridos, mas não se informa a origem destas imagens.

No prêmio Goya, uma espécie de Oscar espanhol, atores, diretores e produtores subiram ao palco usando broches com inscrições contra a guerra e alguns, como Javier Bardem, fizeram declarações engajadas no seu discurso de aceitação do troféu de melhor ator. O protesto irritou Eduardo Campoy, presidente do lobby de produtores Fapae, a ponto de ele pedir a renúncia da atriz Marisa Paredes de seu cargo de presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha simplesmente por tê-lo permitido. Na segunda-feira (10/2), mais de mil profissionais do cinema espanhol, entre eles o indicado ao Oscar Pedro Almodóvar, protestaram contra a guerra e contra o terrorismo, no teatro Alcázar, em Madri.

O mais recente palco para as manifestações foi o Festival de Berlim, onde se manifestaram tanto o ator Edward Norton quanto o diretor Spike Lee. Com sua habitual veemência, Lee declarou: "Muitas pessoas estão sendo enganadas por Bush e Blair. É ridículo esperar que o mundo todo siga o que eles querem. A América não tem o direito moral de dizer aos outros o que fazer". Pelo menos no que diz respeito a boa parte de seus artistas, os EUA podem contar com uma militância tão decidida a favor da paz quanto a de seu presidente em empreeender a guerra a qualquer preço.

Colaborou Neusa Barbosa

Cineweb-14/2/2003

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