04/06/2026

Fernando Meirelles leva às telas o apocalipse de Saramago

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Logo nos primeiros minutos da coletiva para o lançamento de Ensaio Sobre a Cegueira em São Paulo, o diretor Fernando Meirelles faz questão de deixar claro: ‘esse não é um filme nada hollywoodiano’. E ele não se refere apenas à temática. “Boa parte foi rodada no Brasil, com técnicos brasileiros, e na pós-produção também. O direito do livro pertencia a uma empresa canadense, e mais da metade dos investimentos vieram de uma produtora japonesa. Ou seja, não há nada de Hollywood no filme”, esclarece.

Ou quase nada. O elenco é liderado por Julianne Moore – uma das atrizes norte-americanas mais competentes e conhecidas da atualidade, que participou de filmes como As Horas e Filhos da Esperança. Mas também, ela é uma das atrizes menos hollywoodianas de Hollywood. E ela disse que faria qualquer coisa para trabalhar com Meirelles. “Não parece haver muita atuação nos filmes dele. Os atores se parecem com pessoas de verdade”, confessa.

De passagem por São Paulo para divulgar o filme, Julianne contou que as filmagens foram bastante tranqüilas e o clima amigável nos sets, o que foi confirmado pela colega de elenco Alice Braga. “A gente se divertia muito entre uma cena e outra. Eu brincava com os filhos da Julianne e do Fernando”, confessa a brasileira, que faz seu segundo filme com Meirelles, para quem atuou em Cidade de Deus.

Essa descontração, porém, não reflete o clima pesado do longa, baseado no romance homônimo de José Saramago, cujos direitos pertenciam ao canadense Niv Fichman. Destituídas de visão, os personagens começam a se degradar e até cometer crimes. “Para mim, Saramago quis explorar que a civilização é algo muito pueril, e as pessoas sempre pensam que alguém – o governo talvez – irá cuidar da gente”, conta Julianne.

Já para Alice, o filme e o livro são uma metáfora, “e mostram as pessoas se adaptando a uma nova situação extrema. Eles buscam uma luz no fim do túnel, mas cada um vive sua jornada específica”.

Embora a ação não seja situada em nenhuma cidade específica, a maioria das cenas externas foram rodadas em São Paulo – muitas no centro da cidade. Para isso, a equipe de produção contou com apoio da prefeitura e CET. “A gente montava o cenário de madrugada, para começar rodar bem cedinho, e liberar a região no início da tarde”, explica a produtora brasileira Andrea Barata Ribeiro.

Cegueira Branca e Saramago - Meirelles explica que para colocar o expectador dentro do universo dos personagens cegos, com a ajuda de seu diretor de fotografia, o uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone, ele usou uma luz bem branca, além de muitos reflexos e enquadramentos fora de foco.

Mas ele não contou que as imagens seriam tão brancas, por isso se assustou quando viu Julianne loira. “Ele pediu para eu cortar o cabelo na altura dos ombros, mas não falou nada da cor. Eu achei que loiro seria melhor, e tingi sem contar para ele. Quando descobriu se assustou”, recorda. Mas Meirelles acabou achando interessante no final. “Assim ela quase some da imagem às vezes. Parece até um anjo”, brinca o diretor.

Ensaio Sobre a Cegueira é o segundo filme adaptado do Nobel português. E segundo Fichman, o escritor estava meio cético sobre o resultado. “E ele disse que não venderia os direitos de nenhum outro livro antes de ver esse pronto”, explica o produtor. Meirelles mostrou o filme para Saramago numa sessão privada pouco depois da primeira exibição em Cannes, em maio passado, e o criador do romance adorou. “Ele me disse que eu poderia adaptar qualquer livro dele agora. Me deu carta branca”, confessa o diretor.

Mas os planos de Meirelles passam longe do universo denso de Saramago – ao menos por enquanto. “Percebi que meus últimos filmes são pesados. Agora quero fazer algo mais leve, divertido”, explica. Ele está rodando uma série para a globo, baseada em Shakespeare, chamada Som e Fúria. “Acho que o ideal é isso: as produções nacionais farei para a televisão, e para cinema, trabalharei com co-produções estrangeiras”, explica o cineasta.

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