Nesta noite de quarta, o segundo concorrente é o documentário Um Homem de Moral, de Ricardo Dias (SP), um perfil do zoólogo e compositor Paulo Vanzolini, autor de Ronda e outros sucessos nacionais.
Expressionismo e ditadura militar
Com roteiro adaptado de O Mez da Grippe e Outros Livros, do escritor Valêncio Xavier, Mistéryos tem um de seus pontos fortes num visual muito cuidado, unindo os esforços dos veteranos Alziro Barbosa (diretor de fotografia de Serras da Desordem) na fotografia e Fernando Severo (co-diretor, com Marcos Jorge, de Corpos Celestes) na montagem.
Na coletiva da manhã desta quarta (29), os diretores contaram que suas referências para compor a obra passaram desde o expressionismo alemão até a Nouvelle Vague. Desta última, há no filme uma certa busca de filmar na rua, em cenários urbanos de uma parte de Curitiba, como o Passeio Público, onde se dá o primeiro encontro de um jovem casal (Leonardo Miggiorin e Stephany Brito). A história deste encontro, ocorrido em 1969, no dia em que o homem chegava à Lua, é lembrada em retrospecto pelo protagonista já maduro, interpretado por Carlos Vereza.
Visitando o passado, esse homem filtra fragmentos do clima que cercou o desaparecimento misterioso da moça, quando os dois entravam num trem-fantasma. Há suspeita de um crime e o próprio namorado foi considerado suspeito.
Situando historicamente o ano de 1969, o filme faz menções à ditadura militar que, naquele momento, exercia sua repressão da forma mais ferrenha. Alguém levanta a suspeita de que o desaparecimento tenha sido “coisa do MR-8”, referindo-se ao grupo guerrilheiro que atuava na época.
Além desta trama, outra paralela envolve a atividade do protagonista numa busca de filmes antigos, o que permite a Mistéryos enveredar também pela lembrança do cinema paranaense dos anos 20, mencionando realizadores pioneiros reais, como Aníbal Requião.
O que predomina, em todo caso, é este persistente mal-estar que acomete o protagonista, arrastando seus fantasmas numa insônia renitente. Outra de suas obsessões é olhar para uma porta entreaberta, em sua própria casa, onde se enxergam três misteriosas velas, que parecem flutuar no ar. Na coletiva do filme, o diretor Beto Merege disse que considera essa porta uma metáfora de vários tipos de fronteiras: “Pode ser o limite entre a ficção e o documentário, a vida e a morte, muitas outras coisas também”.
Adaptado de um livro, o filme sucumbe às vezes a um excesso de narração, visando preservar o texto literário original, o que compromete um pouco o ritmo.
Mistéryos foi realizado em quatro semanas, com orçamento aproximado de R$ 1,3 milhão. É um digno representante de um cinema autoral, regional e de guerrilha e que deve encontrar seu público preferencialmente nos mais jovens, sintonizados neste estilo sombrio, mas que passa longe do terror gore. Mas, antes, é preciso vencer o pesadelo de todo cineasta brasileiro: encontrar um distribuidor, o que ainda não aconteceu, segundo informaram os diretores.
