Conhecendo Vanzolini desde menino por uma circunstância familiar, o cineasta capta o compositor, conhecido por seu mau-humor e alguns destemperos, inclusive politicamente incorretos, de maneira respeitosa e delicada. O filme ressalta seu lado musical acima de sua personalidade peculiar, contando com a participação de diversos admiradores e amigos, como Chico Buarque de Holanda, Elton Medeiros, Paulinho Nogueira, Inezita Barroso, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Márcia e Virgínia Rosa.
Um Homem de Moral é resultado, assim, de uma intenção de capturar uma beleza que se esconde atrás de uma aparência rude, não só no retrato do artista, como da própria cidade de São Paulo da qual Vanzolini, ele sim, é uma das mais completas traduções. A fotografia especial do veterano Carlos Ebert capta ângulos inesperados do centro velho, ao redor do Mercado Municipal, sob uma luz de madrugada, encontrando beleza no cotidiano de gente simples, sem enfeites, fugindo da atmosfera de cartão postal.
O documentário tem 27 músicas, todas apresentadas na íntegra, por opção do diretor. “Muitas músicas dele são maravilhosas e pouco conhecidas. O filme é também uma oportunidade de revelar mais seu trabalho como letrista”, justificou Ricardo Dias, na coletiva do filme, nesta manhã de quinta (30).
Arquivo precioso
Algumas outras joias do filme estão no material de arquivo. Uma sequência mostra Adoniran Barbosa falando de Vanzolini, citando-o como “zoológico”, naquela sua conhecida ironia gramatical de duplo sentido. A cena veio dos arquivos da TV Cultura e existia em filme 35 mm, o que proporciona uma qualidade excepcional ao trecho.
Outro exemplo está nas fotografias antigas da cidade de São Paulo, de Thomaz Farkas, que ilustram a geografia em que se move a inspiração de Vanzolini, que acaba de completar 85 anos.
Um outro tipo de uso de fotos, estas recentes e feitas por Bob Wolfenson, oferece outra das mais belas sequências do filme. Ao som da melodia de Boca da Noite, na tela vão passando os rostos de diversas pessoas, com um zoom seus rostos, criando a atmosfera cálida e intimista que se torna metáfora da música.
Se esta seqüência já era bela e emotiva, mais ainda se mostra a apresentação de Volta por Cima tendo seus versos cantados nas ruas, bares e praças, por diversas pessoas comuns. Uma prova viva da popularidade da canção e da sintonia fina do compositor com sentimentos comuns a esse povo que, na primeira fala do filme, ele diz gostar muito, só que em geral, não individualmente de cada um – uma frase dúbia, bem no estilo humanista-irônico deste personagem exemplar da vida e da cultura brasileira.
A produtora Zita Carvalhosa foi talvez quem melhor traduziu a importância de Vanzolini num contexto mais amplo: “Ele é parte de uma geração preocupada em olhar em volta, em olhar o todo e mostrá-lo através de suas respectivas artes”. Na mesma geração, ela inclui o próprio Thomaz Farkas, Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna, este amigo de Vanzolini e que ontem à noite esteve no Teatro Guararapes.
O filme estreia em São Paulo e Rio de Janeiro no próximo dia 5 de junho. O lançamento em dvd está previsto para setembro.
