08/06/2026

“Budapeste” explora pluralismo da linguagem na frente e atrás das câmeras

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Quando filmou na capital húngara as cenas do seu longa Budapeste, o diretor Walter Carvalho definiu o set como uma Babel. Afinal, não podia ser diferente, as línguas que se misturavam era português, húngaro, inglês, francês e espanhol. Mas de tanto ouvir o tradutor húngaro dizer ‘ação’, o assistente de direção aprendeu a palavra e começou a dar a ordem sem ajuda de ninguém. “Foi uma epifania”, definiu o cineasta na coletiva em São Paulo para o lançamento do filme.

O húngaro, como bem se sabe, é uma das línguas mais difíceis do mundo. Tanto que Carvalho ensaia umas palavras e logo é corrigido pela atriz Gabriella Hármori, que veio da Hungria para o lançamento do longa. Como diz a personagem da atriz, essa é ‘a única língua que o diabo respeita’. O ator Leonardo Medeiros, que interpreta o protagonista, também parece estar ciente disso. “Tive aulas e percebi que jamais aprenderia o húngaro, então tive de mergulhar na fala das personagens, e me dedicar a estudar as frases que eu falaria”, explica.

Budapeste, baseado no romance homônimo de Chico Buarque, é um filme sobre duplos, sobre a busca da identidade e a língua como fator que une e separa os personagens. Medeiros também lembra que o conflito lingüístico é a natureza do livro. Mas o caminho de transformar o romance em filme não foi fácil. A produtora e roteirista Rita Buzzar (Olga) levou bastante tempo para convencer Chico Buarque a vender os direitos de adaptação. “Mas depois ele foi bem generoso, leu o roteiro, não reclamou das coisas criadas para o filme, e até aceitou fazer uma participação especial”, explica Rita.

Embora o livro tenha feito sucesso no Brasil, na Hungria foi recebido com certas reservas. “As pessoas que leram gostaram”, explica Gabriella se referindo aos amigos húngaros, “mas há muitos clichês sobre a Hungria, por isso não agradou tanto.” Ela mesma confessa que lera o romance um ano antes de filmar e este não lhe deixou nenhuma impressão mais forte. Quanto ao cinema e literatura de seu país, ela explica que o século passado foi muito turbulento, se referindo ao período comunista, e ainda há resquícios disso na sociedade, por isso a arte tenta retratar essa realidade.

Choque de culturas em cena - Para Carvalho, a melhor cena do filme, é quando os personagens de Gabriella e Medeiros se encontram pela primeira vez. “Isso se dá numa livraria, e os dois atores nunca tinham se visto, por isso há um frescor naquele momento, é um momento de descoberta. Havia a marcação básica da cena, mas dei liberdade para eles criarem. Eu tinha o espaço, eles correm pela rua, mas só isso. O que se vê ali é o frescor daquele momento”, explica,

Tanto Medeiros quando Gabriella gostaram dessa brincadeira do diretor. A atriz confessou que nem chegou a procurar foto do colega na internet para não perder o prazer da descoberta ao ver o rosto dele pela primeira vez. “Eu achava que teria uma mística exagerada. No fim, é uma aproximação que parece caótica, mas é libertadora”, define o protagonista.

Os brasileiros também deixaram suas marcas no modo de produção de cinema na Hungria. Carvalho conta que o final das filmagens em Budapeste foram emocionantes. “Houve uma aproximação incomum”, explica o diretor. “Muitos estrangeiros filmam na cidade, mas poucas equipes tentam aprender o idioma, se interessam em fazer amizade com os profissionais locais. Isso ajudou tanto na produção com criou um vinculo.”

Budapeste é uma co-produção entre Brasil, Hungria e Portugal, e deverá ser lançado na Europa no segundo semestre. Do orçamento de R$6 milhões, pouco mais da metade veio de incentivo fiscal, o restante veio dos países co-produtores e da bilheteria que Rita obteve com seu filme anterior, Olga.

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