Aos 76 anos, Coutinho fala cada vez mais como um poeta, desses velhos, sábios e desapegados. “Tchecov não tem nenhuma culpa do que eu fiz. Aliás, eu ainda nem sei porque fiz este filme”, disse ele ontem, na apresentação de Moscou. Parecia sinceramente um menino inquieto, apresentando seu primeiro trabalho à plateia.
Nem todos os espectadores do gigantesco Theatro Municipal de Paulínia, em seus 1.389 lugares, atenderam ao chamado da história. No debate de hoje à tarde, o diretor acha normal a relativa debandada do público: “Este é um filme difícil. Você propõe uma viagem, tem gente que embarca ou não”.
Total disponibilidade, no entanto, tiveram o diretor teatral Enrique Diaz e especialmente o Grupo Galpão que, como lembrou Coutinho, topou seu desafio de entrar numa peça que não faz parte do seu repertório - As Três Irmãs, de Tchecov – e, em apenas 18 dias, desenvolver exercícios e oficinas propostos por Diaz e Coutinho e que nunca visaram completar a montagem da peça. Desde o começo, o projeto visou apenas captar fragmentos do texto – “não interessava contar a história inteira, teatro filmado é insuportável”, diz Coutinho. Além disso, a ideia era incorporar a experiência de toda essa tentativa, desnudando os atores enquanto personagens mas também enquanto pessoas.
Foi uma jornada de risco, como não cessa de admitir o cineasta: “Havia um grupo e um diretor que eu mal conhecia e eu me perguntava o que estava fazendo ali. Não era meu processo normal. Eu não tinha o controle e não sabia o que o filme ia ser nem o que acabou sendo”.
Houve um momento em que ele e outros membros de sua equipe, diante de 70 horas de material filmado e uma primeira versão de 4h40, acharam que ali não havia um filme. Salvou-os desse engano o produtor e cineasta João Moreira Salles, que acabou tendo um papel fundamental para que Moscou se materializasse como cinema. Foi uma grande sorte. Moscou é um desses filmes destinados a servir de guia para muitas discussões e não só de especialistas em teatro. Fala da memória, da narrativa, da literatura, do tempo, da jornada de ser humano e de tantas coisas mais. É provavelmente o menos acessível dos trabalhos do diretor mas merece olhos e corações atentos para decifrá-lo. Chega às telas em 7 de agosto.
No Meu Lugar
O concorrente de ficção da noite, No Meu Lugar, marca a estreia do premiado curta-metragista carioca Eduardo Valente (Um Sol Alaranjado) no formato longa. Como o filme de Coutinho, igualmente propõe-se a uma desconstrução, neste caso, temporal e dramatúrgica, para reconstituir a história de algumas pessoas cujas vidas foram drasticamente alteradas em função do assalto praticado contra uma casa de classe média em Laranjeiras.
O filme acompanha a mulher (Dedina Bernardelli) que veio vender a casa onde tudo aconteceu. O policial que atendeu à ocorrência (Márcio Vito) atormenta-se com os erros cometidos na ocasião, que para ele igualmente tiveram conseqüências profundas. Mais dramáticas ainda foram os efeitos sobre a vida dos desencadeadores da situação-chave, um entregador de compras e uma empregada doméstica.
No Meu Lugar desdobra o tempo e procura nitidamente uma abordagem distanciada, um despojamento dramático que visa um despojamento formal. Em parte, o projeto inicial cumpre seus objetivos, mas deixa algumas pontas soltas – como o destino da empregada, da qual não se dá pistas. Parece um filme-projeto, um filme-tese, algo a caminho, mas que ainda não chegou lá.
