03/06/2026

Paulínia acolhe documentário sobre Manoel de Barros e filme sobre imigração

A poesia luminosa de Manoel de Barros encantou a plateia do II Festival Paulínia de Cinema, na noite de terça (14), através do documentário Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar. O diretor carioca, que já brilhara no perfil de um surfista, registrado em outro documentário, Fábio Fabuloso, novamente repetiu o vigor e a originalidade neste vital retrato do longevo poeta matogrossense, de 93 anos.

Despertou mais polêmica o concorrente ficcional da noite, Olhos Azuis, de José Joffily – que teve aqui sua primeira exibição pública, ao contrário do documentário de Pedro Cezar (já exibido na Mostra de SP e no Festival É Tudo Verdade). O filme aborda a rotina do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova York, em que latino-americanos são maltratados pelos três oficiais, numa noite que terminará em tragédia para o brasileiro Nonato (Irandhir Santos).

Assinado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, o roteiro de Olhos Azuis centra fogo no acirramento de tensões do Departamento de Imigração do aeroporto americano, ressaltando o comportamento preconceituoso de seu chefe, Marshall (o ator americano David Rasche, da série Na Mira do Tira). Marshall é quase um vilão nazista, racista, machista e reacionário, que, além do mais, é alcoólatra e vive seu último dia de trabalho antes da aposentadoria. A tragédia se precipita quando ele ameaça com uma arma o brasileiro, que mora nos EUA e tenta voltar ao país.

Várias vezes, o tom e os incidentes de Olhos Azuis parecem um tanto forçados, como que procurando a caricatura. Aparentemente, isto não aconteceu de forma proposital. No debate sobre o filme, na tarde desta quarta (15), o diretor e o roteirista Halm, ao serem indagados, negaram ter tido, em qualquer momento, a intenção de ironizar os maneirismos das séries policiais americanas.

De todo modo, um bocado dos clichês destas séries entram de contrabando no filme, que tem bons momentos, mas é desequilibrado. A tensão na sala da espera da imigração, onde se amontoam argentinos, hondurenhos, cubanos e brasileiros, é eficiente. O conflito entre os representantes da lei dos EUA – que incluem um branco de origem irlandesa (Rasche), uma mulher negra (Erica Gimple) e um oficial de origem mexicana (Frank Grillo) – e os imigrantes em busca de permissão de entrada reproduzem uma situação bem real e contemporânea.

Há um clima de revanchismo, de acerto de contas entre o Primeiro e o Terceiro Mundos – fala-se até do apoio que, por décadas, os EUA deram às ditaduras latinoamericanas - que afinal se resolve da pior maneira. O oficial que provoca a morte vem depois ao Brasil, à procura da filha do homem morto, contando com a ajuda de uma prostituta, Bia (Cristina Lago), o que desvia a história no caminho da expiação da culpa, para ele, e da redenção numa segunda chance, para ela.

É um filme ambicioso e rico em nuances, muitas não resolvidas dramaturgicamente da melhor maneira. De todo modo, a plateia do festival o acolheu bem. Talvez, apesar de seus defeitos, coloque uma discussão que, de algum modo, é importante colocar em circulação.

Notícias relacionadas