13/06/2026

Gramado vive céu e inferno com filmes e Xuxa

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O 37º Festival de Gramado teve uma noite de céu e inferno nesta quarta (12). Não se sabe por qual capricho dos programadores se achou conveniente escalar para a mesma jornada filmes tão disparatados entre si quanto a tosca chanchada colombiana Nochebuena, de Maria Camila Loboguerrero, e um documentário intenso e sólido quanto o brasileiro Corumbiara, de Vincent Carelli. Uma opção desastrada mas que certamente não ofuscou o brilho do filme brasileiro, que revisita o continuado genocídio indígena em regiões remotas do Brasil.

Exibido no É Tudo Verdade 2009, onde ganhou uma menção honrosa, Corumbiara remete ao já premiado aqui em 2006 Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. Como o filme de Tonacci, o de Carelli é feito de segmentos filmados em épocas diferentes, ao longo de mais de 20 anos. Período em que o cineasta, idealizador do pioneiro programa Vídeo nas Aldeias, acompanha, com o sertanista Marcelo Santos, vários episódios de um massacre de índios isolados, os canoês. Essa investigação leva às pistas de outros massacres, como o dos akunsus e dos misteriosos “índios do buraco” – que não se sabe a que nação pertencem, morando em buracos e, compreensivelmente, evitando a todo custo contato com os brancos.

O impacto de Corumbiara - nome de uma gleba em Rondônia cuja ocupação selvagem simboliza um modelo equivocado de desenvolvimento predatório na Amazônia – é tanto mais sensível por permitir apreciar um pouco da humanidade desses índios num tom contemplativo, como por incorporar as incertezas do próprio cineasta e de seu parceiro Marcelo Santos. Esse duplo caminho dentro do filme constroi um itinerário rico de questões que, em mais de um momento, mostra-se doloroso de compartilhar. Por tudo isso, Corumbiara é o tipo do filme que, sem nenhum exagero, pode-se classificar como necessário.

Chanchada e Xuxa
Não fez o menor sentido, pelos filmes apresentados até aqui, a inclusão da comédia Nochebuena - que lembrou os piores momentos de algumas das piores comédias brasileiras, como Casa da Mãe Joana e A Guerra dos Rocha. O enredo, que gira em torno de uma decadente família, cujo filho caçula está envolvido num esquema financeiro fracassado, não passa de um amontoado dos piores clichês de programas televisivos, tipo Zorra Total.

O inferno astral do festival, que nos últimos três anos tem conseguido elevar sensivelmente o nível de sua programação, sob a curadoria de Sergio Sanz e José Carlos Avelar, continua nesta noite de quinta (13) com o ridículo aparato de segurança exigido pela produção da apresentadora Xuxa Meneghel – que receberá uma homenagem especial do festival hoje. Homenagem, aliás, sem o menor sentido. A contribuição de Xuxa ao cinema nacional tem sido na pior direção. Xuxa renega em sua filmografia os poucos filmes dignos que fez, porque eróticos, como Amor, Estranho Amor (82), de Walter Hugo Khoury – cuja circulação ela não cessa de procurar impedir. Depois dele, vem estrelando uma série de outros, cuja pobreza de ambição artística é inversamente proporcional à avidez e ao desplante com que usam o merchandising.

A passagem de Xuxa por aqui implicou situações anômalas para a organização do festival, que acarretaram reuniões prévias com a imprensa para discussão de “regras”, sorteios de lugares para jornalistas a quem será permitido aproximar-se da apresentadora e deslocamento da imprensa credenciada de seus habituais lugares no Palácio dos Festivais, para dar lugar aos fotógrafos no momento da homenagem.

Curtas
Tem sido boa, de modo geral, a seleção de curtas, que muito apropriadamente, foram agrupados por blocos temáticos. No primeiro dia (terça), foi exibido o lote mais sério, ou sinistro e de humor negro. No segundo (quarta), o bloco sensível e intimista.

Do primeiro dia, destacou-se o documentário Pra Inglês Ver, de Vitor Granado e Robson Dias, que examina com evidente viés crítico as excursões de turistas estrangeiros às favelas cariocas. Em Terra de Cego, de João Boltshauser, relata, com humor negro à la Estômago, as aventuras de um malandro envolvido com bandidos e matadores nos morros cariocas.

Quiropterofobia, de Fernando Mantelli, vai muito mais fundo, criando um filme de gênero, no caso o terror sangrento, sobre um psicopata que sequestra pessoas para beber seu sangue – com evidente e assumida inspiração em José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

O mineiro Doceamargo, de Rafael Primot – exibido em Paulínia – revê um clima da ditadura, em 1968, na alegórica situação de um casal, preso entre as ferragens de um carro acidentado (Débora Falabella e Rafael Primot).

Do segundo bloco, o melhor disparado foi O Teu Sorriso, de Pedro Freire, que retrata a doce paixão de um casal maduro (Paulo José e Juliana Carneiro da Cunha). Também romântico, Teresa, de Paula Szutan e Renata Terra, acompanha a decepção e renascimento de uma jovem interiorana (Sabrina Greve, de Uma Vida em Segredo) que desembarca em São Paulo, esperando um noivo que não vem.

Apresentado no Cine Ceará, a boa animação Josué e o Pé de Macaxeira, de Diogo Viegas, revisita com humor e um tempero nordestino a história infantil de João e o Pé de Feijão. Humor também, em torno da histórica rixa entre as cidades de Alegrete e Uruguaiana, está no centro do gaúcho A Invasão do Alegrete, de Diego Müller.

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