22/07/2026

Documentário recicla memória dos Novos Baianos e sua resistência hippie à ditadura

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Brasília - Primeiro filme da seção competitiva do Festival de Brasília, o documentário Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas, colocou em primeiro plano não só o grupo musical Os Novos Baianos, como os dilemas e desafios da geração 68 para viver de uma forma alternativa, baseada na filosofia hippie, produzir música e simplesmente sobreviver no período mais duro da ditadura militar.

O filme do estreante Dantas – que tem um passado nas Artes Plásticas e demorou 11 anos para concluir este trabalho – tem o mérito de constituir mais um documento, com a vantagem de ser vibrante e musical, a acrescentar novas camadas de compreensão ao período ditatorial (1964-1985). Esta época, sobre a qual há muito ainda sobre o que falar, recentemente esteve no centro de diversos documentários – caso de Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Calvito Leal, Cláudio Manoel e Micael Langer, e de Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, que está estreando nos cinemas em 27 de novembro.

Um diferencial em Filhos de João... - título que remete a João Gilberto – está em focalizar a Bahia e sua identidade cultural, por mais que grande parte da atuação dos Novos Baianos, surgidos em 1969, tenha se localizado geograficamente em torno do Rio de Janeiro e São Paulo ou arredores.

Estão presentes as indispensáveis entrevistas com integrantes do grupo, como Galvão, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Charles Negrita, Gato Félix, Bola Moraes (que morreu pouco depois), Dadi, Didi e Jorge Gomes e outros (o grupo teve diversas formações). São entrevistados também o cineasta Solano Ribeiro e os músicos Armandinho e Tom Zé – este último, amigo de infância de Galvão e incentivador da formação do grupo, cujo depoimento entrelaça todos os outros e é simplesmente genial, também pela energia vocabular e inventividade do baiano de Irará, radicado em São Paulo.

Ausências
Duas ausências marcam o documentário – faltam os depoimentos de Baby Consuelo, atualmente Baby do Brasil, e do próprio João Gilberto, que teve influência direta sobre a mudança do estilo do grupo, indo do puro rock ao encontro com outros ritmos brasileiros, permitindo a fusão que os caracterizou.

Os próprios letreiros finais do filme informam que Baby deu um depoimento ao cineasta, mas depois negou-lhe autorização para utilizá-lo. Na coletiva do filme, Dantas descreveu Baby como uma “grande contadora de histórias”, que deu uma entrevista maravilhosa, de três horas”, mas no final não assinou os papeis permitindo o uso de suas imagens. Segundo ele, a cantora pediu para mostrar o papel a advogados e não atendeu mais à produção. Devido à necessidade de concluir o filme, o próprio cineasta tomou a difícil decisão de cortar seu depoimento, deixando apenas suas imagens em apresentações com o próprio grupo e que vêm de arquivos pessoais (como o de Mário Luiz Thompson) e de um documentário realizado pela TV alemã em meados dos anos 70, quando os Novos Baianos moravam juntos num sítio no estado do Rio.

O caso de João Gilberto foi diferente. Segundo Dantas, não havia mesmo imagens dele junto com o grupo (um filme antigo se perdeu num incêndio). Há alguns anos, o próprio João Gilberto alimentou, segundo o cineasta, a expectativa de que poderia dar-lhe uma entrevista, que finalmente não aconteceu. Assim, Dantas optou por mostrá-lo apenas em imagens fragmentadas, a partir de uma foto. “Na verdade, ele é uma figura assim arredia, que existe no palco e na música. No filme, ficou assim mesmo”, comentou o diretor.

Mais importante e positiva foi a decisão de Dantas de reconstituir a história do grupo unindo, na montagem, os depoimentos a partir de assuntos comentados. O que não evitará, com certeza, que algumas discordâncias, mesmo pacíficas, se produzam sobre as memórias de cada um. Um exemplo foi citado por Galvão na coletiva de imprensa: “Dadi nunca morou com a gente no sítio, ele morava fora e vinha todos os dias. Nem era João Gilberto o homem de terno que um dia veio nos visitar no apartamento em que a gente morava então. Era o filho da dona do lugar, que vinha receber o aluguel e acabou fumando um baseado e adorando conhecer o João Gilberto, que estava lá dentro tocando com a gente”.

Quanto à distribuição do filme, nada está acertado. A esperança de seus produtores é que se concretize em breve um projeto, no momento sendo estudado junto à secretaria da cultura da Bahia, que poderia destinar uma verba de R$ 250.000,00 a cada um dos dez longas que estão concluídos ou em vias de conclusão no estado.

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