13/06/2026

Judoca deficiente visual espera que documentário ajude a diminuir preconceito

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É com a mesma articulação e modéstia que se vê na tela que o judoca brasileiro Antonio Tenório concede entrevista. Tetracampeão paraolímpico na categoria até 100 kg, o esportista é o centro do documentário B1- Tenório em Pequim, dirigido por Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura, que entrou em cartaz na sexta (03) em São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre. O judoca conta que topou participar do filme logo de cara mais impôs uma condição: que as filmagens não atrapalhassem os seus treinos.
 
“O filme vai mostrar para todo mundo que a pessoa com deficiência não é coitadinha. Quando um atleta passa por um processo de perda física, não deixa de ser atleta”, disse Tenório ao Cineweb. Em “B1” há um momento em que um judoca que não é deficiente visual prefere não lutar com Tenório, que se revolta com o preconceito. “Espero que o filme ajude a diminuir o preconceito contra os atletas de paradesportes, que seja uma lição para todos”.
 
Braga e Hunter Moura se interessaram por Tenório durante os Jogos Parapan-Americanos de 2007, quando o viram lutando. “Ficou claro que ali havia um personagem interessante. Se a gente não fizesse o filme, alguém teria feito”, conta Braga. “Fomos a única equipe do mundo a ter acesso a áreas privilegiadas, como concentração, treinamentos durante as Paraolimpíadas de Pequim”.
 
Braga conta que B1 – Tenório em Pequim é um filme de observação sobre a preparação de um atleta, por isso há pouco sobre a vida pessoal do judoca. “Queríamos transmitir também aquela sensação de isolamento que qualquer atleta enfrenta quando está se concentrando para competir”. O filme acompanha a trajetória do judoca para as Paraolimpíadas de Pequim, em 2008, onde ele se consagrou com o ouro.
 
Mas não é só isso, os próprios diretores contam que filmar com Tenório foi uma lição para eles. “Tínhamos como inspiração um filme inglês chamado ‘Black Sun’, sobre um pintor cego. Mas quando conversamos com Tenório, vimos que o tipo de cegueira dele era outra, que estaríamos equivocados se seguíssemos nossa ideia inicial”, conta Hunter Moura. Braga explica que conviver com o judoca o fez aprender ao vivo as lições de persistência do atleta. “Foi como ele diz: aprender a usar a sabedoria no momento do embate. Apostar e investir no sonho”.
 
O sonho de Tenório começou na adolescência, nos anos de 1980, quando, num período de seis anos, perdeu a visão nos dois olhos e seu pai disse que ele devia cuidar de si mesmo sozinho. “O judô mostrou que eu poderia treinar, fazer as minhas atividades sem precisar de ajuda. Nunca pensei em abandonar o esporte. Eu soube que teria limitações, deveria me adaptar, mas quando coloquei o quimono, vi que não teria nada de diferente”.
 
Em B1, Tenório brinca dizendo que gosta de ir ao cinema e prefere sentar numa poltrona no meio da sala, de onde pode ver o filme sem precisar levantar a cabeça. Quando perguntado se isso é verdade, o judoca logo fala que vai a muitos filmes com sua família, e que um dos seus favoritos é a comédia As Branquelas.
 
Mas, em se tratando desse documentário, o esportista sabe que o assunto é um pouco mais sério. “O filme pronto me dá uma sensação de dever cumprido. Eu topei fazer não por mim, mas pelo legado que vai deixar, pelo exemplo que pode ser. Espero que no meio das milhares de pessoas que virem o filme estejam alguns deficientes e eles se sintam incentivados a praticar esportes”.

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