13/06/2026

Vencedora do Globo de Ouro, minissérie “Carlos” estreia em canal pago HBO

Quase um ano depois de ter se tornado uma das atrações mais comentadas da Mostra
Internacional de São Paulo – onde ganhou o prêmio especial da crítica – e do Festival
do Rio, estreia na TV a cabo na América Latina, no canal HBO, a minissérie “Carlos”,
do cineasta francês Olivier Assayas. A série venceu também o Globo de Ouro de sua
categoria.
 
Diretor de dramas intimistas como “Clean” (2004) e “Horas de Verão” (2008), Assayas,
a bem da verdade, foi uma escolha surpreendente para comandar a vibrante telebiografia
do famoso terrorista internacional Ilitch Ramírez Sánchez, que passou à história como
Carlos, o Chacal. Inicialmente, o projeto foi oferecido a diretores diferentes – como o
russo Pavel Lungin, o israelense Amos Kollek e o egípcio Gabriel Aghion – e começou
a ser tocado pelo romeno Radu Mihaileanu (“Trem da Vida”). Quando ele saiu fora,
Assayas recebeu e aceitou o convite, que terminou guindando-o a um novo patamar
profissional, pelo ótimo resultado obtido.
 
Produzida em três capítulos – num total de 5h33 – pela emissora francesa Canal +,
à qual somou-se a norte-americana Sundance Channel, “Carlos” teve seu roteiro
desenvolvido a partir de uma pesquisa do jornalista Stephen Smith, ao longo de dois
anos. A versão final do roteiro foi escrita pelo próprio Assayas, ao lado de Dan Franck e
do produtor Daniel Leconte.
 
O resultado dessa soma de forças foi uma superprodução, com orçamento estimado
em torno de 14 milhões de euros, extremamente bem-cuidada, inclusive no respeito às
línguas faladas pelos personagens – que incluem espanhol, francês, inglês, alemão e
árabe -, além das paisagens (houve filmagens em oito locações, em três continentes).
 
Venezuelano como o terrorista – que está hoje na prisão na França, cumprindo pena
de prisão perpétua –, o ator Edgar Ramírez (visto em filmes como “O Ultimato
Bourne”) também conquistou território novo em sua carreira ao encarnar com notável
naturalidade o papel desse homem, que se tornou uma das mais conhecidas celebridades
do mal a partir dos anos 70, por trás de inúmeros atentados e assassinatos pelo mundo.
 
Ramírez não só se transforma fisicamente ao longo do filme, engordando e
envelhecendo, como consegue transmitir fielmente a ambiguidade de sua personalidade
e a mudança de enfoque de sua luta – que, cada vez mais, se afasta de uma
alegada “defesa dos povos oprimidos”, aproximando-se de um mercenarismo a serviço
de sucessivos grupos, palestinos, japoneses, alemães, sírios, líbios e iraquianos.
 
Se “Carlos”, a série, não guarda tantas semelhanças com “Che”, o duo de filmes
assinados por Steven Soderbergh, particularmente devido à eficiência dramática da
primeira e à frieza do segundo, o mesmo não se diga dos dois personagens, duas das
figuras mais emblemáticas da política de décadas atrás. Internacionalistas os dois, a
princípio, distanciam-se na medida em que, ao contrário de Che Guevara, Carlos deixou
 
de lado qualquer idealismo. Como definiu o diretor Assayas, na coletiva de imprensa
do Festival de Cannes 2010, onde a série teve sua première mundial: “Carlos passou de
militante a mercenário cínico”.
 
Com rigorosa reconstituição de época, não só em termos de cenários e figurinos, como
dos detalhes de episódios marcantes na trajetória do terrorista – como a invasão de uma
reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Viena, em
1975, e o resgate dos reféns por ele mantidos num avião pelo serviço secreto israelense
em, Entebbe, Uganda, em 1976 – “Carlos” supera com folga as habituais limitações
da estética televisiva, mergulhando fundo no contexto histórico, ao mesmo tempo que
aprofunda seus personagens e radiografa uma época e suas paixões.
 
SERVIÇO
“Carlos”. Minissérie em três capítulos, com 330 minutos de duração. Estreia domingo
(7), às 22h, na HBO (primeiro capítulo). O segundo capítulo vai ao ar na emissora no
domingo (14), o terceiro, no domingo seguinte (21), sempre às 22h.

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