Quase um ano depois de ter se tornado uma das atrações mais comentadas da Mostra
Internacional de São Paulo – onde ganhou o prêmio especial da crítica – e do Festival
do Rio, estreia na TV a cabo na América Latina, no canal HBO, a minissérie “Carlos”,
do cineasta francês Olivier Assayas. A série venceu também o Globo de Ouro de sua
categoria.
Diretor de dramas intimistas como “Clean” (2004) e “Horas de Verão” (2008), Assayas,
a bem da verdade, foi uma escolha surpreendente para comandar a vibrante telebiografia
do famoso terrorista internacional Ilitch Ramírez Sánchez, que passou à história como
Carlos, o Chacal. Inicialmente, o projeto foi oferecido a diretores diferentes – como o
russo Pavel Lungin, o israelense Amos Kollek e o egípcio Gabriel Aghion – e começou
a ser tocado pelo romeno Radu Mihaileanu (“Trem da Vida”). Quando ele saiu fora,
Assayas recebeu e aceitou o convite, que terminou guindando-o a um novo patamar
profissional, pelo ótimo resultado obtido.
Produzida em três capítulos – num total de 5h33 – pela emissora francesa Canal +,
à qual somou-se a norte-americana Sundance Channel, “Carlos” teve seu roteiro
desenvolvido a partir de uma pesquisa do jornalista Stephen Smith, ao longo de dois
anos. A versão final do roteiro foi escrita pelo próprio Assayas, ao lado de Dan Franck e
do produtor Daniel Leconte.
O resultado dessa soma de forças foi uma superprodução, com orçamento estimado
em torno de 14 milhões de euros, extremamente bem-cuidada, inclusive no respeito às
línguas faladas pelos personagens – que incluem espanhol, francês, inglês, alemão e
árabe -, além das paisagens (houve filmagens em oito locações, em três continentes).
Venezuelano como o terrorista – que está hoje na prisão na França, cumprindo pena
de prisão perpétua –, o ator Edgar Ramírez (visto em filmes como “O Ultimato
Bourne”) também conquistou território novo em sua carreira ao encarnar com notável
naturalidade o papel desse homem, que se tornou uma das mais conhecidas celebridades
do mal a partir dos anos 70, por trás de inúmeros atentados e assassinatos pelo mundo.
Ramírez não só se transforma fisicamente ao longo do filme, engordando e
envelhecendo, como consegue transmitir fielmente a ambiguidade de sua personalidade
e a mudança de enfoque de sua luta – que, cada vez mais, se afasta de uma
alegada “defesa dos povos oprimidos”, aproximando-se de um mercenarismo a serviço
de sucessivos grupos, palestinos, japoneses, alemães, sírios, líbios e iraquianos.
Se “Carlos”, a série, não guarda tantas semelhanças com “Che”, o duo de filmes
assinados por Steven Soderbergh, particularmente devido à eficiência dramática da
primeira e à frieza do segundo, o mesmo não se diga dos dois personagens, duas das
figuras mais emblemáticas da política de décadas atrás. Internacionalistas os dois, a
princípio, distanciam-se na medida em que, ao contrário de Che Guevara, Carlos deixou
de lado qualquer idealismo. Como definiu o diretor Assayas, na coletiva de imprensa
do Festival de Cannes 2010, onde a série teve sua première mundial: “Carlos passou de
militante a mercenário cínico”.
Com rigorosa reconstituição de época, não só em termos de cenários e figurinos, como
dos detalhes de episódios marcantes na trajetória do terrorista – como a invasão de uma
reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Viena, em
1975, e o resgate dos reféns por ele mantidos num avião pelo serviço secreto israelense
em, Entebbe, Uganda, em 1976 – “Carlos” supera com folga as habituais limitações
da estética televisiva, mergulhando fundo no contexto histórico, ao mesmo tempo que
aprofunda seus personagens e radiografa uma época e suas paixões.
SERVIÇO
“Carlos”. Minissérie em três capítulos, com 330 minutos de duração. Estreia domingo
(7), às 22h, na HBO (primeiro capítulo). O segundo capítulo vai ao ar na emissora no
domingo (14), o terceiro, no domingo seguinte (21), sempre às 22h.
