09/08/2026

Sergio Machado junta Criolo e Lázaro Ramos em filme sobre Heliópolis

Por Neusa Barbosa

A ideia de que a educação e a música têm o poder de iluminar vidas percorre Tudo que aprendemos juntos, o novo filme do diretor Sergio Machado que escala Lázaro Ramos e uma trupe de jovens atores para recriar experiências em parte reais da comunidade paulistana de Heliópolis – sede do Instituto Baccarelli, uma bem-sucedida investida na profissionalização de jovens talentos na música clássica que resultou numa orquestra sinfônica e num coral.
 
Foi o empresário Antonio Ermírio de Moraes quem, anos atrás, chamou a atenção dos produtores Caio e Fabiano Gullane, despertando seu interesse em filmar a história do surgimento dessa orquestra. Seis anos depois, o filme teve sua première mundial no Festival de Locarno, em agosto último, que desencadeou uma parceria com a Film Boutique para distribuí-lo em 22 países. Na mais recente Mostra Internacional de São Paulo, o filme venceu o prêmio de público.
 
Filho de músicos clássicos, o diretor Sergio Machado aproximou-se do projeto vendo nele, mais do que um tributo aos pais, um motor de sua própria busca como diretor. “Fico sempre incomodado com uma certa ideia de que estamos fadados ao fracasso. Quis fazer um filme para os que não querem ir embora deste país, para os que querem ficar e mudá-lo”.
 
Por incrível que pareça, Lázaro Ramos teve que, segundo ele mesmo, “implorar” para conseguir o papel de Laerte Santos, o violinista reprovado num exame da OSESP que termina tornando-se professor de uma classe de garotos numa escola pública de Heliópolis. O diretor tinha pensado nele como o melhor amigo do violinista mas, ao ler o roteiro, Lázaro só conseguia ver-se como Laerte, já que ali estava uma parte de sua própria história pessoal também. O diretor mesmo concede: “Entre os garotos e o Lázaro, rola uma química que não aconteceria de outra forma. Ele é o que eles sonham ser um dia, eles são o que ele já foi”, explica.
 
Embora o filme seja uma ficção – com roteiro de Sergio Machado, Marcelo Gomes, Maria Adelaide Amaral e Marta Nehring -, toda sua dinâmica é pautada pela realidade. Fatos dramáticos ocorridos na comunidade, como um confronto com a polícia e mortes de garotos por policiais, entram na trama. O elenco foi selecionado ali mesmo, entre o Instituto Baccarelli, Heliópolis e algumas comunidades próximas. 30 a 40% dos garotos sabiam tocar violino, os demais aprenderam ao longo de um ano de preparação.
 
O próprio Lázaro Ramos aprendeu a tocar um pouco. Mas, depois de um mês de aulas, se desesperou, “porque achava que ia conseguir tocar alguma coisa, mas não conseguia nada”. Salvou-se, no entanto, aprendendo uma espécie de coreografia de intérprete do instrumento, recorrendo a uma série de filmes fornecidos por Machado.
Um dos principais intérpretes jovens, Kaíque de Jesus realiza aqui seu segundo filme, tendo estreado em Linha de Passe, de Daniela Thomas e Walter Salles, atuando como o filho caçula de Sandra Corveloni, que aqui encarna a diretora da escola. 
 
Outro jovem ator em destaque é Élzio Vieira, que tem experiência em dança urbana. Ele conta que aprendeu a dançar num projeto social, como o que o filme retrata, por isso se identificou totalmente com seu tema em torno da educação como agente de mudança. “Por isso não foi difícil interpretar meu papel, este filme já é sobre a gente”. O elenco jovem teve a preparação de Fátima Toledo.
 
Presentes na trilha, os rappers paulistanos Criolo e Rappin’ Hood também aparecem no filme – Criolo, aliás, tem um papel como o poderoso traficante do bairro. Outro rapper, Thogun, não canta, mas atua como o rígido pai do menino Gabriel (Kaíque de Jesus).
 
Com orçamento estimado em torno de R$ 10 milhões, Tudo que aprendemos juntos foi contra a corrente ao ser filmado em película, por insistência do diretor de fotografia Marcelo Durst, por entender que este material permite uma qualidade e dramaticidade mais precisa para esta história.

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