Era véspera de uma Quarta-feira de Cinzas e nevava na Itália, enquanto Rodrigo Santoro se afligia com as filmagens do dia seguinte: o que o aguardava era simplesmente ser crucificado em cena, na pele de Jesus Cristo, papel marcante que o brasileiro ganhou no novo Ben-Hur, de Timur Bekmambetov. Foram seis horas de maquiagem e o frio o fez pedir ao diretor russo-cazaque que gravassem um take bom de uma vez só, pois “congelar e descongelar” várias vezes entre os cortes seria mais difícil para ele.
Em certo ponto da gravação, o ator realmente congelou, como afirmou durante a coletiva de imprensa de divulgação do filme, a ponto de não se lembrar de mais nada. Porém, voltando às memórias do que aconteceu antes disso, quando ele ficava olhando para Jack Huston, o Judah Ben-Hur da vez, enquanto o pôr-do-sol marcava o horizonte da cidade lá embaixo, aos pés da cruz, Santoro não conseguiu esconder a emoção na frente dos jornalistas, o que fez com que ele, logo depois de uma pausa, brincasse com esta sua constante emotividade.
Protagonista deste remake, Jack Huston também ressalta a dificuldade das filmagens, pelo frio congelante e o vento. E destaca que Rodrigo, com quem estabeleceu uma conexão rápida no set, estava muito comprometido. “Precisa-se de um verdadeiro ator para pegar este papel”, elogia Huston, que frisa a humanidade que o parceiro de cena dá ao personagem.
O brasileiro que há mais de uma década constrói sua carreira em Hollywood – onde nunca foi vítima de preconceito, segundo ele, apenas dos estereótipos, que existem em qualquer lugar –, por sua vez, já acompanhava o trabalho do inglês há algum tempo. “A primeira vez que vi o Jack foi naquela série Boardwalk Empire. E eu me lembro de ver aquele personagem e ficar completamente intrigado. Acabei assistindo à série por causa daquele personagem”, afirma o ator, lembrando como o colega chegou animado em seu trailer, no primeiro dia de gravação. “A gente acabou iniciando ali um processo, que eu acho que é uma das coisas mais maravilhosas em qualquer experiência artística, que é o processo colaborativo”, declara, ressaltando a troca aberta entre ambos, já que este Jesus foi criado para o Ben-Hur, para quem aquele carpinteiro era apenas mais um homem.
Convidado, certa vez, para a famosa Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, mas sem poder participar por causa de outros compromissos, Rodrigo queria viver esta experiência, apesar da responsabilidade de interpretar uma figura tão forte, independente de ser cristão ou não. Foi difícil evitar as pesquisas na internet, dias antes da cena da crucificação, e se afligir tentando entender os significados de certas ações e frases daquele momento. “Tive que estudar e me preparar como um todo... É o homem, né! Porque a gente não pode esquecer que, especialmente, a ideia deste filme é trazer Jesus mais acessível, mais misturado entre as pessoas, dando mais o exemplo do que pregando, bem diferente do que a gente está acostumado a ver”, explica Rodrigo, que afirma ter mudado sua própria relação com a imagem de Jesus Cristo em uma jornada íntima e espiritual, como o conhecimento dos “limites de sua própria humanidade”, dentro deste trabalho singular.
Esta paz foi encontrada, de maneira diferente, por Huston ao passar pela experiência incrível de correr em uma biga. “Foi extremamente libertador! Na vida, a mente fala com você, mas, quando você está na biga, sua mente vai embora por alguns segundos e você vive o momento”, descreve. No entanto, foi um longo processo para ele e Toby Kebbell, que vive o antagonista Messala Severus, aprenderem a dirigir o veículo carregado por quatro cavalos e lembrar de atuar nestes momentos. Porém, era só uma das missões dentro de um blockbuster que carrega o peso da adaptação anterior do romance de Lew Wallace, Ben-Hur: Uma História do Cristo, já que o Ben-Hur (1959) estrelado por Charlton Heston coleciona 11 estatuetas do Oscar, sendo o filme mais premiado pela Academia, junto de Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003).
“Conheço a versão de William Wyler [o diretor do laureado longa] muito bem. Eu amo aquele filme e cresci assistindo-o. Quando soube deste, fiquei muito cauteloso. Mas quando li o roteiro, me deu um alívio e otimismo”, confessou o inglês, que afirmou nunca reparar no orçamento de uma produção e sim no personagem ao ler um roteiro. Foi assim com uma visão renovadora do tenente George Wickham, que fez em Orgulho, Preconceito e Zumbis, e agora com um protagonista um pouco diferente daquele que Heston, segundo ele, construiu com uma atuação tão maravilhosa, pois aqui “Judah é um menino e há uma jornada para ele virar um homem”. Jack ainda retoma que “para aqueles que viram as personificações anteriores de Ben-Hur, especialmente a mais icônica, de 1959, aquilo foi incrível, porque, naquele tempo, ninguém havia visto algo de tamanha proporção. O tamanho dos sets, a quantidade de figurantes, cavalos...”, frisando também o estilo de atuação mais teatral da época.
Por isso, o ator nem considera o novo longa um remake da superprodução de Wyler, por achar este diferente e único. Um dos motivos, para ele, seria o fato de terem se concentrado em modernizar a atuação em um estilo mais próximo do público atual, além da ação intensificada. Outra razão está em seu potencial moral, porque, como ressalta Santoro, “essa história é baseada num livro de 1880 e é muito contemporânea”, tendo muito a falar desta “violência que a gente não entende”. Huston vai além e destaca o final diferente de Ben-Hur (2016), cujo recado, neste mundo cheio de ódio, é transcendental à religião e sustenta que brigar não é o caminho: “Há uma incrível mensagem positiva, de redenção, de perdão e de generosidade. Algo que, no mundo de hoje, entre tragédias, guerras políticas, religiosas... Um filme como este, ou apenas a mensagem positiva, é capaz de fazer repensar suas ações”.
