25/06/2026

Vera Cruz renasce com produção de filme americano

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A mais séria tentativa de implantar uma Hollywood nacional, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, está voltando. Cinqüenta e cinco anos depois de sua fundação - em 1954, pelos pioneiros Francisco Matarazzo Sobrinho e Franco Zampari - e após várias décadas de abandono e tentativas abortadas de ressurreição, seus amplos estúdios, em São Bernardo do Campo, reabrem as portas a partir de março. Começa aí a pré-produção de The Genesis Code, a primeira de uma série de dez produções internacionais que deverão filmadas na cidade do ABC paulista nos próximos cinco a dez anos.

Dirigido por Hugh Hudson (do filme vencedor do Oscar Carruagens de Fogo, de 1981) e estrelado pelo ator cubano Andy Garcia, astro de produções como O Poderoso Chefão 3 e Os Intocáveis, o filme tem orçamento estimado em US$ 22 milhões e marca a primeira investida em território brasileiro da Scorpion Productions, produtora americana sediada em Los Angeles, que assinou um contrato de exclusividade de cinco anos, com opção de renovação, para filmar algumas de suas próximas produções nos históricos estúdios de São Bernardo do Campo.

A retomada das atividades agora é segura. Estão garantidas no estúdio três produções da Scorpion, em associação com a Bigel-Mailer Productions, que tem à frente Michael Mailer, filho do famoso escritor Norman Mailer. A primeira, The Genesis Code, com início de filmagens previsto para abril. Logo depois, entra em produção Garota de Ipanema, com uma história inspirada na célebre canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e para a qual já se cogitou ter Kim Basinger no papel de Helô Pinheiro. Existe ainda uma terceira produção engatilhada cujos detalhes os produtores Martin Ansola e Mario Romano preferem não adiantar por enquanto. "Temos outras sete produções na fila", anima-se Ansola, o responsável pela concretização da parceria.

Como costuma acontecer em roteiros de cinema, o acaso representou seu papel para que o processo de reativação da Vera Cruz entrasse em movimento. Dois anos atrás, representantes da Cash, empresa brasileira especializada em projetos internacionais em diversas áreas, inclusive filmes, procuraram Jay Bernstein, produtor da série As Panteras, informando-o sobre as possibilidades de uso dos imensos estúdios da Vera Cruz - são dois galpões de 44.000 metros quadrados nas imediações de São Bernardo, fora uma área externa com capacidade para conter uma cidade cenográfica ou outras instalações de grande porte.

Motivado por esse contato, o produtor Martin Ansola veio conhecer pessoalmente São Bernardo, enxergando de imediato o potencial do que viu, apesar de, naquele momento, isso não significar mais do que um grande espaço à espera de utilização. Recentemente, o local foi utilizado apenas esporadicamente, nas filmagens de Carandiru, de Hector Babenco, e do ainda inédito Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach.

Seguiram-se dois anos de negociações que culminaram no contrato agora firmado entre a Scorpion, a Cash e a prefeitura de São Bernardo do Campo, proprietária do estúdio, que o está, desta forma, arrendando. Na verdade, a conversa com Bernstein não tinha sido a primeira ocasião em que Martin e seu colega Mario Romano tinham ouvido falar da Vera Cruz. "Todas as pessoas que estudam cinema sabem de sua existência e do quanto ela foi importante, dos filmes que produziu no Brasil. Daí o nosso interesse em participar da reconstrução de um centro de produção desta grandeza", destaca Romano.

Martin, por sua vez, enxergou as possibilidades da variedade da paisagem brasileira para funcionar como locação substituta de outros países em histórias diversas. "O Brasil pode ser dublê de vários outros lugares. Tem paisagens que podem passar-se pela Espanha, a Turquia, a Itália ou a Virgínia", acentua. No caso de The Genesis Code, aliás, as filmagens no Brasil substituirão justamente as passagens da história na Itália. Cerca de 70 % do filme será rodado em seis semanas no Brasil, com elenco e equipe principal (diretor, atores, produtores, etc.) vindos dos Estados Unidos. Mas, no caso de técnicos de som, fotografia, montagem e outras funções auxiliares, estima-se em 500 o número de profissionais que serão contratados no país. Fora o pessoal de apoio externo, como transportadores, fornecedores de alimentação, mantenedores de equipamentos, etc.

A principal vantagem para a produtora americana, com certeza, é a redução de custos. "Uma produção do porte de The Genesis Code custaria o triplo nos Estados Unidos", observa Cesar Bargo Perez, do departamento de marketing da Cash. O câmbio é a favor dos americanos e o custo de praticamente tudo, da alimentação ao aluguel de câmeras, é sensivelmente menor. A distribuição e divulgação está a cargo da Warner Brothers, que se comprometeu a gastar um orçamento de US$ 20 milhões com o lançamento do filme.

Baseado num bestseller de John Case publicado em 1997, The Genesis Code conta a história de Joe Lassiter (Andy Garcia), dirigente de uma agência de investigação de alta tecnologia, abalado pela morte repentina de sua irmã e seu sobrinho. Aparentemente, eles morreram num incêndio, mas as investigações apontam que os dois foram assassinados antes que o fogo começasse. Lassiter encontra uma ligação entre as mortes de seus parentes e uma série de outros assassinatos. O elo está na figura de um cientista que descobriu o DNA de Cristo e procura cloná-lo em várias pessoas. O roteiro é de Ronald Shusett (autor das histórias de O Vingador do Futuro e Minority Report).

O sucesso desses três primeiros projetos confirmados pela Scorpion são a garantia da realização dos sete outros já planejados e a consolidação do Brasil como locação alternativa para os produtores de Hollywood - que pode também vir a interessar outras empresas internacionais. "Neste momento, apenas Cidade do Cabo, na África do Sul, e a Austrália funcionam como pólos de atração. O Canadá já ficou mais complicado, com restrições colocadas pelo governo e problemas sindicais", destaca Perez. Em sua opinião, será igualmente muito positivo o impacto que terá sobre o cinema brasileiro essa chegada de uma cultura de estúdio americano, com estratégias de investimento e marketing muito distintas, bem como o treinamento de diversos profissionais brasileiros. Além disso, a chegada de estúdios internacionais dispostos a investir no país pode ser uma das alternativas para superar os impasses da lei de incentivo com base na renúncia fiscal, que parece ter dado sinais de esgotamento para o financiamento do cinema brasileiro.

No caso de Garota de Ipanema, a segunda produção planejada pelo Scorpion, e ainda sem data fechada para começar, a participação de pessoal brasileiro será bem maior do que em The Genesis Code. Pelo menos metade do elenco aí será de atores brasileiros, sem contar os técnicos. Outro benefício paralelo será que 5% dos lucros auferidos pela empresa no Brasil serão doados a um projeto assistencial da prefeitura de São Bernardo, voltado para atendimento à saúde e educação de crianças, "Criança Prioridade Número Um".

A prefeitura também já está fazendo a sua parte, reformando o estúdio de São Bernardo, e deverá brevemente colocar portas à prova de som substituindo as antigas portas de aço, semelhantes às de armazéns, que dividem até agora os dois galpões. Está previsto que outros US$ 5 milhões de investimento nacional deverão entrar no projeto de The Genesis Code. Para isso, a Cash já montou um detalhado plano de negócios e está à procura de investidores no Brasil.

Cineweb-16/2/2004-11.23

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