08/06/2026

Hellboy não fala de Bush mas elogia X-Men

Há muito mais de Hellboy em Ron Perlman do que o que o físico avantajado. Ao menos é essa a impressão que o ator passou durante a entrevista coletiva realizada nesta terça-feira, em São Paulo, para o lançamento do filme inspirado no personagem de quadrinhos. Fazer caras e bocas, como o personagem, e não levar as coisas muito a sério são a sua diversão. O filme estréia sexta-feira em circuito nacional.

Ao ser perguntado sobre sua opinião em relação ao presidente George Bush, ele se levantou e colocou a mão sobre o coração, num gesto patriótico. Será que o Hellboy é pró-Bush? Nada disso. Perlman diz que prefere não opinar sobre política.

Mas nem por isso deixa de contar que ficou impressionado com o documentário de Michael Moore "Fahrenheit 11 de Setembro". "Espero que o filme funcione", deixa escapar, confessando que o documentário mexeu com ele.

Soa estranho Perlman se esquivar de assuntos polêmicos - afinal ele é conhecido pela franqueza, principalmente quando se trata de Hollywood. "Sempre soube que não fariam de mim um grande astro, por isso acabei me tornando um ator de personagens", explica.

Com quase trinta anos de carreira, em "Hellboy" ele assume o papel de protagonista pela primeira vez. E gostou muito da experiência. "Foi maravilhoso. Mas percebi que o protagonista tem uma grande responsabilidade. Tudo gira em torno do trabalho desse ator", explica. E cogita-se que ele continuará no posto, ao menos em se tratando do "Hellboy", que terá uma continuação.

Com o mesmo bom humor de seu personagem, ele faz piada sobre os boatos que cercam o próximo filme. "Estou no segundo filme sim. Agora sou a mocinha. Dizem que o Bruce Willis está com um agente novo. E agora quer fazer um personagem que tenha um rabo. Talvez ele faça o Hellboy", brinca.

Mas se depender do diretor mexicano Guillermo Del Toro, Perlman continuará no posto. Afinal, como o próprio ator revelou, o diretor precisou brigar com um estúdio por cinco anos para conseguir que o filme fosse feito com ele no papel principal. Quando conseguiu novamente os direitos do personagem, Del Toro foi procurar outra produtora que aceitasse fazer o filme como ele queria.

No entanto, Perlman foi poupado pelo cineasta, a quem considera seu melhor amigo, de todo o estresse da negociação. "Ele me protegeu de ser magoado, porque as pessoas não me queriam para fazer o papel", explica. "Mas eu entendo, um filme é muito caro, não é possível ficar apostando assim", complementa.

Para se transformar no herói endiabrado, Perlman passava por quatro horas diárias de maquiagem, e mais duas adicionais para as cenas em que aparece sem camisa. "É meu corpo mesmo, só que pintado de vermelho", diz, orgulhoso do alto de seus quase dois metros de altura. Ele conta que a maquiagem não era desconfortável. "Muito pelo contrário, os designers fizeram de tudo para eu me sentir bem na pele do Hellboy. A fantasia é bonita e funcional", explica.

Como um ator de personagens, Perlman diz que a adaptação que Del Toro fez de "Hellboy" veio na medida certa. "Tudo o que eu necessitava para compô-lo estava lá. Não precisei buscar referências", comenta. "Hellboy tem muita humanidade. Ele foi criado para o mal, mas luta pelo bem."

Embora o Hellboy de Perlman agrade aos fãs do personagem, o ator pode decepcionar um pouco os aficcionados por histórias em quadrinho. "Nunca li HQs. O Guillermo sempre foi muito fã e o seu entusiasmo me levou a fazer o filme", confessa. Depois de encarnar o personagem, o ator começou a se interessar mais por gibis. "Tenho lido muito as publicações de Alan Moore. Estou maravilhado com esse mundo. Agora faço parte do 'clubinho'", confessa.

E mostra que já está entendendo do assunto. "Acho que a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema é o "X-Men", diz, sem se dar conta de que está elogiando o filme de um estúdio concorrente. "É um filme muito bem feito, inteligente. Um verdadeiro épico. Fico honrado quando comparam o 'Hellboy' ao 'X-Men'", explica.

Perlman conta também que teve a aprovação de Mike Mignola, o criador do personagem, que participou ativamente do filme. "Ele se envolveu desde o começo. Ajudou muito na produção, desenhando roupas, armas, diversos adereços. Chegou ir a Praga várias vezes, onde filmávamos, para dar sua opinião sobre o filme", conta.

Cineweb-27/7/2004-15.30

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