21/07/2026

Documentário premiado descortina obra e trajetória da artista Alzira E

      Alzira E em cena do documentário "Aquilo que nunca perdi" (Crédito: Divulgação)

“Não tinha como fazer um filme quadrado sobre a Alzira, ela é uma figura transgressora, não dava para ser um documentário certinho.” Assim define Marina Thomé seu documentário Aquilo que nunca perdi, sobre a artista Alzira E, que chega aos cinemas na próxima quinta (08).
 
O filme, premiado no In-Edit, resgata a trajetória e descortina o processo criativo de Alzira, que, no passado, trazia seu sobrenome Espíndola, mas agora assina apenas com o E. Thomé, que também é fotografa, conheceu a artista cerca de 15 anos atrás, por meio de um amigo em comum, o poeta Arruda, parceiro da cantora em diversas composições. “Ela é fascinante, e fiquei fascinada nela. Comecei fotografando shows, mas tinha que ter um registro mais completo dela, de suas apresentações, de sua obra”.
 
Nascida em Campo Grande (MT), Alzira veio para São Paulo nos anos de 1970, trazendo seus filhos e filhas, e aqui deu continuidade à sua carreira, tornando-se um referencial. “Ela canta, toca, dança. Agora tem uma banda de rock, a Corte, na qual toca baixo. Todas essas variações, esses talentos dela tinham de estar no filme, assim como o resgate de sua história.”
 
Para capturar e trazer ao público essa complexidade de sua protagonista, Thomé se vale de imagens de arquivo, entrevistas exclusivas com Alzira e sua família, que inclui também a cantora Tetê Espíndola. “Eu divido o documentário em três núcleos: o Baú de Memórias, que tem o reencontro com seu acervo digitalizado, encontro com parceiros; o Recuerdos, que traz a família e material de arquivo no Mato Grosso; e Corte, que é o momento atual, com a banda de rock.”
 
 
     Marina Thomé, diretora do documentário "Aquilo que nunca perdi" (Crédito: Marcia Mansur/Divulgação)

Por meio desse retrato, Thomé também leva Alzira e sua arte a um público maior, especialmente jovem que possivelmente não conhece a artista. “Ela é, acima de tudo, uma guerreira. O filme foi mostrado em festivais pelo mundo, e as pessoas ficam elucidadas com ela. Um homem de Nova York disse que a Alzira é nossa Patti Smith”, se diverte a documentarista contando sobre a trajetória do longa, que já passou em países como Argentina, Portugal e Polônia, onde foi exibido na Cracóvia, ao ar livre, atrás de um castelo. “Foi lindo, uma experiência única”, se recorda a diretora.
 
Thomé também pontua que Alzira, sua família e sua arte são uma espécie de resistência ao momento de obscurantismo que o Brasil enfrenta. “Os Espíndola são uma espécie de visionários desde a década de 1970. A arte dela é extremamente política.” E apesar de conhecer a cantora há alguns anos, a diretora confessa que fazer o filme foi descobrir coisas sobre Alzira E. “Ela tem um disco de Maysa. As duas são tão diferentes no jeito de cantar, na voz, e, ainda assim, Alzira fez algo complemente diferente do que costuma fazer. Acho que se eu fizesse uns oito filmes sobre ela, ainda teria coisas para serem ditas.”
 
Com seu vasto material de arquivo e filmagens exclusivas para o documentário, Thomé, que também assina a montagem do filme, contou com a participação de Dellani Lima no roteiro. “Ele ficou apaixonado pelo material que tínhamos, e compreendeu muito bem a intenção do filme. Também contei com o Joaquim Castro para edição do rough cut que tinha cerca de 4 horas, montado a partir do roteiro, e foi preciso lapidar muito para chegar à forma final.”
 
Experiente em fotografar shows, Thomé explica que filmar uma apresentação é um desafio bem maior, pois o palco é algo vivo. “Por mais que tenhamos feito ensaios, que tivemos uma apresentação feita exatamente para o filme, que eu podia dirigir esse show, sempre é imprevisível. É orgânico, é preciso sentir o movimento do corpo do artista, e seguir. E isso, Alzira tem de sobra.”

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