Lido, 11 de setembro - Doce e completa, mas britanicamente cool, a vingança do diretor Mike Leigh. Com o Leão de Ouro nas mãos, ele agradeceu ao júri de Veneza e ao Festival de Cannes, que este ano não aceitou na seleção oficial o filme agora vencedor, Vera Drake. Ambientado na Inglaterra em 1950, o drama sobre a amável dona de casa que ajuda por altruísmo jovens grávidas a abortar ficou também com a Coppa Volpi para melhor atriz, entregue a Imelda Staunton. O Leão de Prata, ou Prêmio Especial do Júri, foi para Mar Adentro, do espanhol Alejandro Amenábar. Javier Bardem, como o tetraplégico Ramón Sampedro, que lutou 30 anos para conseguir por fim à vida que considera indigna, foi considerado melhor ator - ele ganhou o mesmo prêmio aqui mesmo em Veneza em 2000, por Antes que Anoiteça, de Julian Schnabel. O prêmio de direção foi entregue ao coreano Kim Ki-duk, com o filme-surpresa Binjip/Empty Houses. A animação O Castelo Errante de Howl, de Hayao Myiazaki, recebeu o prêmio Osella pela "melhor contribuição técnica", na única manobra diplomática do júri. "Num mundo cínico e mercantil, é importante que uma produção européia pequena e independente seja reconhecida. Vera Drake foi realizado com orçamento quase ridículo. E agradeço sinceramente a Cannes, que recusou o filme e me permitiu estar aqui neste momento", disse um imperturbável Mike Leigh. O último grande prêmio dele foi a Palma de Ouro em 1996, por Segredos e Mentiras. O júri de Veneza, presidido pelo cineasta John Boorman, contou ainda com os diretores Mimmo Calopresti, Wolfgang Becker, Spike Lee e Dusan Makavejev, as atrizes Scarlett Johansson, Helen Mirren e Hsu Feng, e o montador Pietro Scalia. Dessas nove cabeças em plena autonomia saiu exatamente aquilo que sempre se espera em festivais: uma decisão justa e soberana, mesmo sob pressão tão escandalosa, despudorada e constrangedora como a imposta por toda a imprensa italiana a favor de Le Chiavi di Casa, o simpático filme de Gianni Amelio. As manchetes de ontem mencionavam "traição", "desastre", "noite amarga". Ninguém em plena consciência pode negar que foram prêmios corajosos dados a três filmes magníficos, todos, de maneiras diversas, mas contundentes, empunhando bandeiras de liberdade e tolerância ao tratar de temas ainda de difícil assimilação. Pela primeira vez a cerimônia de premiação saiu do Lido, transferida para o belísssimo Teatro La Fenice, nas proximidades de San Marco. Mas a mudança de pouco adiantou para que profissionalismo e charme subissem ao palco. Sedutora, mas abandonada e confusa (esqueceu de anunciar um prêmio), a apresentadora Claudia Gerrini fez o que pôde para rechear o tosco cerimonial. Na abertura, uma Sophia Loren quase septuagenária, mas muito desfrutável, entregou mais um Leão de Ouro pela carreira, desta vez ao diretor americano Stanley Donen, que ensaiou uns passinhos de sapateado. Mas nada comparável a Gene Kelly ou Fred Astaire. A partir daí, os poucos prêmios da mostra veneziana foram se sucedendo aos trancos e barrancos. Gafes com microfones, tradutores imprecisos, nepotismo da transmissão televisiva centrada em figurões da RAI.
"Vera Drake", recusado em Cannes, ganha Leão de Ouro
- Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge
- Publicado em 07/09/2004 às 14:13
- Tempo de leitura 2 minutos
