Brasília - Estar neste festival me permitiu ver pela segunda vez O Agente Secreto, o filme de Kleber Mendonça que assisti em sua première mundial, em Cannes, onde levou quatro prêmios, incluindo melhor direção e ator para Wagner Moura.
Filme de abertura hors concours no Festival de Brasília que celebra seus 60 anos de criação - este só não é o 60º festival porque a ditadura militar o proibiu por dois anos, na década de 1970 -, O Agente Secreto teve uma sessão prestigiada na abertura da sexta (12) à noite, e de uma reprise igualmente disputada na manhã de sábado, lotando o Cine Brasília com 600 espectadores.
Rever o filme que disputa a indicação para representar o Brasil no Oscar 2026 - e que seria a escolha mais acertada - me permitiu recordar vários detalhes e reavaliar a sólida estruturação de uma obra que articula vários gêneros e tons, criando uma multiplicidade que aspira a sintonizar a própria complexidade do Brasil.
Na coletiva deste sábado (foto acima), o diretor Kléber Mendonça Filho, ao lado da produtora Emilie Lesclaux e de boa parte do elenco - menos Wagner Moura, que está ensaiando uma peça de teatro -, repetiu uma fala que, a meu ver, faz cada vez mais sentido: o filme, com enredo ambientado em 1977, não é sobre o passado, mas sobre o presente. Porque a saga do protagonista, Marcelo (Wagner Moura), um homem que foge a uma perseguição política obscura, comunica-se com a ideia de um país que ainda não fez as pazes com todas as memórias desse passado, dessa ditadura que matou, torturou e exilou e que foi encerrada mediante uma anistia que deu a falsa impressão de uma pacificação que nunca houve - porque os criminosos do regime não foram punidos.
Não é que a história do filme proponha nenhuma revanche. Apenas ela resgata relatos de um tempo não tão distante em que os poderosos mantinham uma aliança nem tão disfarçada com matadores e policiais sem escrúpulos e as pessoas que incomodavam os círculos do poder tinham que recorrer a uma rede clandestina de apoio, desmontando toda possibilidade de manterem uma vida normal.
E se o humor também comparece é pela via do macabro, com o surgimento de uma perna na boca de um tubarão e dos relatos da imprensa popularesca sobre os ataques dessa perna em locais como parques públicos - e que era uma espécie de metáfora para descrever os excessos policiais que nenhuma imprensa podia denunciar explicitamente, mas boa parte do público decifrava o código.
E, se não propõe revanche, O Agente Secreto repropõe o resgate da memória - que é um tema constante no Brasil, mas aqui encontra uma substância diferente. O filme é sobre tudo isso e muito mais. Que o Brasil saiba recebê-lo de coração e mente abertos quando estrear nos cinemas, em 6 de novembro próximo.
