San Sebastián - Os fantasmas rondam a 74ª edição do Festival de San Sebastián. Primeiro foram os mortos da fábula romântica juvenil do alemão de origem turca Fatih Akin em Ghost Song. Na trama ingênua, um rapaz secundarista perde a garota que ama num acidente de carro e passa a conviver com seu espírito. Agora, em chave adulta e nada inocente, o chileno Pablo Larraín apresenta a série Mis Muertos Tristes. A produção da Netflix foi exibida na íntegra, no formato de longa-metragem com três horas de duração, no concurso oficial. Não sem alguma polêmica, já que o protocolo definido para festivais internacionais é incluir séries apenas nas seções paralelas.
Mas se há mistério na decisão do evento, vem a calhar o escolhido para driblar o acordo, como o público poderá conferir a partir de quinta (24) na plataforma. Estranhamentos não faltam nessa proposta de gênero entre o terror psicológico, o humor ácido propiciado pelo tom de absurdo, mesmo surreal, mas também de crítica social de um estado de coisas, como sublinhou o diretor na coletiva de imprensa. Larraín foi à periferia de Buenos Aires para adaptar os contos da argentina Mariana Enriquez, local cindido por uma clara divisão de classes, de um lado casas de classe média protegidas, do outro um conjunto habitacional tido como violento. É nesse ambiente tenso que se dá o encontro do real com o sobrenatural representado pela médica Ema, interpretada por Mercedes Morán.
Ela acaba de ser aposentada compulsoriamente e perder a mãe idosa, de quem cuidava. Mas eis que passa não só a ouvir seus gemidos de dor como também vê-la, habilidade que, logo saberá, é extensiva a todos os mortos ao seu redor. E não são poucos, dado que gangues e extermínios são comuns ali. Além de tentar acalmar inocentes, ou nem tanto, assassinados, Ema precisa lidar com a família da irmã recém-chegada dos Estados Unidos. As duas não se dão bem, mas a médica tem especial carinho pela sobrinha, uma jovem com obesidade mórbida, depressiva, que logo mostra ter a mesma sensibilidade espiritual da tia. Será uma tragédia envolvendo a garota o veio central que segura o mistério até o fim.
A abordagem e os elementos envolvidos podem não ser novidade nas séries, mas o que rende aqui é a junção dos relatos fantásticos da autora e a pegada de habitual conceito sombrio de Larraín desde ao menos sua trilogia iniciada com Tony Manero (2008). Sobretudo, está no registro voltado ao medo que circunda as classes médias, o pavor e preconceito ao distinto, ao diverso, simbolizado pela condição geográfica onde se dá a trama.
O bairro periférico de Piedrabuena existe e foi desenvolvido entre os anos de 1940 e 1970 como um conjunto habitacional, chamado de ‘monoblocos’, por arquitetos famosos para uso social. Com o tempo, o lugar entrou em decadência e foi esquecido pelos governos. “Eles são os olvidados de que nos fala o filme de Buñuel”, aponta Larraín. “Foram esquecidos e isso também é uma espécie de morte”. Atraente até a metade, a série patina nos dois capítulos finais e redunda em seus méritos de gosto bastante peculiar.
