Mas quem faz essa diferenciação entre os filmes, na verdade, são os críticos. O público do festival, jovem e festivo, aplaudiu quase tudo com grande entusiasmo – exceto Aboio, que tem uma narrativa que exige maior concentração, o que não parece estar nos planos da maioria da platéia. Esse calor dos espectadores, aliás, é um dos principais atrativos deste festival para os realizadores, o que é compreensível. Não é todo dia que se pode ter à disposição uma massa humana de 2.500 pessoas com esse espírito acolhedor para testar um filme.
Uma grande qualidade deste festival é ofertar uma seleção representando a produção de várias regiões do Brasil, que reclamam, com certa razão, do predomínio do eixo Rio-São Paulo nas telas nacionais. A produção baiana Esses Moços, por exemplo, tem como cenário a Cidade Baixa de Salvador, desconhecida dos cartões postais da capital baiana, para contar a história de três protagonistas despossuídos: duas meninas de rua (Chaiendi dos Santos e Flaviana da Silva) e um velhinho (Inaldo Santana). O diretor Araripe Jr. Começa com uma narrativa naturalista, que flui bem especialmente na primeira metade do filme, amparada na grande energia das duas protagonistas, jovens atrizes de grupos teatrais de Salvador. Na segunda metade, o filme cai um pouco de rendimento, quando tenta enveredar por um tom de fábula – uma tentativa válida, mas que fica prejudicada pelas visíveis limitações de tempo e orçamento que o diretor reconheceu na coletiva de imprensa.
O gaúcho Cerro do Jarau, de Beto Souza (diretor de Netto Perde sua Alma), padece do defeito de procurar mesclar vários gêneros e não conseguir este objetivo com resultado fluente para a platéia. Partindo de uma lenda gaúcha, constrói-se um filme visivelmente bem produzido, com assumidas influências do cinema os irmãos Coen e Jim Jarmusch – mencionados pelo diretor na coletiva de imprensa do filme. Mas, neste mundo cheio de artifícios que se procura criar, para contar uma trama meio policial, meio rocambolesca, entre três primos, dois homens (Tiago Real e Tarcísio Meira Filho) e uma mulher (Julia Barth), uma grande soma de dinheiro e alguns gângsters um tanto patéticos (um deles, Miguel Ramos, ator gaúcho de prestígio no sul), não se encontrou o molho certo para dar o sabor. O filme resulta confuso, cansativo e, em alguns momentos, decididamente trash.
È diferente o caso de Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach. Filme produzido pela atriz Betty Faria e que gira em torno do seu personagem, é um trabalho claramente sincero e empenhado, como tudo o que Carlão faz. Trata-se, como define o diretor, de um drama político. Betty interpreta Serena, uma enfermeira madura e solitária, que tem uma história no passado envolvendo um senador. Passados vários anos, ela é procurada por um assessor dele (Antonio Grassi) para cuidar do filho dele (Renan Gioelli, um dos protagonistas de Meu Tio Matou um Cara). O menino é um filho secreto do senador, com outra mulher, e é retirado de circulação num momento em que um grande escândalo de corrupção envolve o político.
Mais uma vez, é um filme extremamente feminino, como Garotas do ABC. Carlão é sempre extremamente generoso com suas personagens de mulheres, concedendo-lhes em seus filmes a possibilidade de ultrapassar os estereótipos, tornando-se inteiras, complexas, verdadeiras. Essa é a grande qualidade. Mas o filme também é um pouco irregular em termos de roteiro e algumas atuações, como a de Werner Schünemann, situam-se definitivamente acima do tom.
