Um balanço possível da seleção deste ano, a esta altura, aponta a clara superioridade dos documentários – que aqui foram Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, Aboio, de Marília Rocha, e Soy Cuba – El Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz. Os três longas são realizações maduras, sensíveis, com pleno domínio técnico e narrativo que realizaram sua proposta – embora Do Luto à Luta e Soy Cuba... tenham mostrado capacidade de uma comunicação com um público maior, sem nenhum prejuízo da avaliação de Aboio, uma realização de qualidade indiscutível (o que justificaria plenamente uma nova premiação aqui, mesmo depois de ter vencido a competição nacional de É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários).
Os filmes de ficção apresentam maior fragilidade. O melhor é mesmo Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach, um melodrama com fundo político de onde emerge uma nítida discussão sobre a ética e um denso retrato da alma feminina – o que já é uma marca registrada do diretor paulista. Mesmo apresentando algumas porções do roteiro que poderiam ter sido mais bem resolvidas, o filme de Carlão emerge íntegro e sincero. É superior a todos os outros filmes de ficção deste festival. E parece difícil arrebatar de Betty Faria o prêmio de melhor atriz aqui.
Há, em todo caso, pelo menos uma qualidade indiscutível a apontar nos dois concorrentes Esses Moços, de José Araripe Jr., e No Meio da Rua, de Antônio Carlos da Fontoura. Com protagonistas infantis cativantes, os dois filmes abordam uma questão que cada vez mais assombra o imaginário do País: a profunda, injusta e ainda irresolvida questão social, as divisões que separam pobres e ricos, brancos e negros, despossuídos e donos do poder. É vital que o cinema discuta isso que abala a nação e esses filmes o fazem, ainda que sem chegar à melhor, mais eficiente, forma de fazê-lo. As limitações de orçamento, as incertezas do processo de produção de filmes que levam, tantas vezes, que eles demorem a se concluir, com certeza interferiram, nestes dois casos, para que o resultado final ficasse aquém do esperado.
O gaúcho Cerro do Jarau, de Beto Souza, padece de um outro tipo de problema. É até uma produção bem cuidada, mas é prejudicada por um tipo de pretensão que só é problemática porque não se realiza. O filme começa com um tom de narrativa noir, que empresta sua inspiração assumidamente do cinema dos irmãos Coen e Jim Jarmusch, e, por falta de controle eficiente de todos os seus detalhes, descamba num tom trash que não se sabe se foi intencional ou não – mas não ficou bom.
Haja o que houver na premiação, o sucesso popular do festival permanece intocado em seu nono ano. A diretora do festival, Sandra Bertini, informou ontem no seu balanço desta edição que a expectativa é que se chegue a um público total de 30.000 pessoas, sendo que 21.000 nas sessões da Mostra Competitiva, que começou na quarta (13). A generosidade de acolhida desta platéia é, com certeza, o grande incentivo para os realizadores que vêm aqui. Com certeza, o Cine PE contribui para que o amor do povo brasileiro por seu próprio cinema seja reforçado. Não é pouco como missão para um festival.
