13/06/2026

O ‘dia seguinte’ de Sérgio Bianchi causa tumulto no XV Festival do Ceará

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Se a segunda noite de competição no XV Festival do Ceará foi tranqüila e mais breve – todos os curtas da competição que seriam exibidos no domingo foram distribuídos pelos demais dias do festival --, o mesmo não se pode dizer do debate realizado na manhã de segunda, no qual participaram os realizadores Sérgio Bianchi (de Quanto Vale ou é Por Quilo?, na foto) e o jovem cearense José Welliton Moraes (do curta Esperança) e Lia Gandelman (produtora associada de Moacir – Arte Bruta, dirigido por Walter Carvalho).

Apesar do clima descontraído do início das discussões que também reunia imprensa e cinéfilos, Bianchi se mostrava disposto a criar polêmicas. Entre seus comentários, disse que seus filmes não emplacam porque a distribuidora estatal Riofilme é muito burocrática e as pilhas de papel se acumulam. Mas entre suas sugestões para superar esse entrave está uma que vai de encontro exatamente contra aquilo que ele critica no filme. “Acho que deveríamos alugar salas de cinema para passar o filme. Depois alugar um ônibus e levar as pessoas para vê-los de graça”, divaga.

As tentativas de polemizar não paravam por aí. Bianchi não se conteve e citou nominalmente o crítico do jornal O Estado de São Paulo, Luiz Zanin Oricchio, dizendo que o jornalista falou mal do filme para agredi-lo pessoalmente e não analisando a sua obra. “Não admito que se diga que meu filme é mal acabado, porque não é’, disse o diretor.

Zanin, por sua vez, tentava explicar a sua posição como crítico, mas o diretor não parecia estar disposto a ouvir algo que não fosse elogios ao seu longa - que, aliás, teve uma acolhida dúbia após a exibição na noite de domingo, recebendo até algumas vaias.

Bianchi se mostrou o tempo todo irredutível, acusando o jornalista de não ter feito uma crítica, de ter feito apenas uma reportagem superficial. Zanin lembrou que a matéria do Estadão, quando do lançamento do filme, trazia, além de sua crítica, uma entrevista com o diretor e uma matéria com representantes de ONGs, instituições que são alguns dos alvos de crítica de Quanto Vale....

O diretor paulista parecia disposto apenas a receber elogios. As críticas propostas pela jornalista e pesquisadora de cinema Maria do Rosário Caetano também foram rebatidas por Bianchi, dizendo que ela também tinha problemas pessoais com ele desde quando vetou a participação de Cronicamente Inviável no Festival de Brasília.

Coube ao mediador do debate, o jornalista e crítico paulista Celso Sabadin, esfriar os ânimos, desviando a discussão para os outros filmes.

Arte bruta, fotografia delicada
Em sua segunda exibição pública, o documentário Moacir – Arte Bruta, do cineasta e diretor de fotografia Walter Carvalho, arrancou suspiros e aplausos no Cine São Luiz. O longa mostra um artista plástico bem peculiar, um esquizofrênico que mora no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e produz uma arte primitivista bastante original.

Graça à formação e experiência em direção de fotografia de Carvalho, as obras de Moacir ganham destaque na tela. Suas pinturas com traços primitivistas incluem seres bizarros, diabinhos, animais. Contando com depoimentos da família e conhecidos de Moacir, o longa traça um curioso e delicado painel de uma pessoa que encontrou na arte sua forma de estar inserido no mundo – mesmo estando fechado em seu próprio mundo.

Ao longo do filme, o roteiro mostra que a arte de Moacir é instintiva. Com problemas de fala, audição e formação óssea, ele tem dificuldades de se expressar verbalmente – assim, muitas de suas falas são legendadas.

A produtora Lia Gandelman contou que Moacir ‘viu’ o filme, mas não se sabe se compreendeu. Ela também disse que o cineasta alimenta o sonho de fazer esse projeto há 15 anos, desde quando conheceu, por acaso, o artista, enquanto fazia uma filmagem na região onde Moacir morava.

Moacir – Arte Bruta foi um dos filmes mais bem recebidos pela platéia do festival, tornando-se um dos favoritos a receber prêmios, pelo menos até o momento.

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