Conhecido o tradicional bom-humor do dramaturgo e cineasta do Leblon, alguém poderá até pensar numa piada. No máximo, o lema encerra uma ironia. Apesar da longa carreira de quatro décadas e dos prêmios para filmes como “Amores” (1998) e “Separações”(2002), Oliveira é um dos muitos cineastas brasileiros que não conseguem financiamento para seus projetos dentro da já bastante esgotada via das leis de incentivo. Entretanto, longe de desistir de filmar ou juntar-se a um coro ocioso de protestos, ele prefere realizar os filmes possíveis – em tecnologia digital e com o mínimo de recursos, nem que sejam do próprio bolso. “Cinema com patrocínio é bom mas, se não tiver, também tem que fazer”, conclamou ele ao apresentar seu filme que foi filmado em oito noites e com orçamento de alegadamente apenas R$ 35.000,00 – uma soma capaz de quase rivalizar com o americano Robert Rodriguez e os US$ 7.000 de seu primeiro El Mariachi (1992).
Integrante de uma geração militante nos anos 60, que acreditou em ousadias comportamentais de toda ordem, Oliveira construiu seu filme de maneira a corporificar seu protesto estético e político - com direito inclusive a intertítulos, no começo, detalhando o sofrido processo de produção. Filmado em digital (como Feminices, seu trabalho anterior), Carreiras investe com um pouco mais de energia e ambição em direção ao seu tema – o que talvez seja resultado de centrar-se numa única protagonista, Ana Laura (mais uma vez, sua mulher, a atriz Priscila Rozenbaum), ao invés de dispersar-se em várias histórias que não teria como aprofundar, deficiência que prejudicou a fluência dramatúrgica de Feminices.
Parece prematuro atribuir prêmios com apenas um dia de competição, mas a garra de Priscila Rozenbaum já alimentou a crença de que será difícil tirar dela o kikito de melhor atriz. Na pele de uma âncora de TV envolvida com intrigas profissionais e dramas pessoais e familiares, Priscila passa uma convicção comovente em vários momentos – como na cena em que fala com sua família num celular ou quando grita na rua para acordar os moradores de um prédio adormecido. Priscila é forte, fraca, alucinada, histérica, contraditória, irritante, passando de um registro a outro com total domínio de sua arte. Pode-se creditar ao filme algumas redundâncias – na insistência das conversas da protagonista com seus chefes ao telefone – mas Carreiras encerra uma honestidade em sua proposta, apesar das irregularidades.
Documentário em Cuba
O documentário da noite foi Soy Cuba – O Mamute Siberiano, em que o carioca Vicente Ferraz reconstituiu com rigor e emoção a saga do filme Soy Cuba (1964), do russo Mikhail Kalatosov. O diretor, premiado com a Palma de Ouro em Cannes em 1957 (com o filme Quando Voam as Cegonhas, liderou o projeto, que traduzia a aproximação de Cuba e da potência soviética naquele momento em que a Guerra Fria com os EUA estava no auge. Ou seja, era uma aliança política. Nem por isso deixou de representar uma soma de outras ambições, artísticas, estéticas, culturais, que só a passagem de 41 anos podem esclarecer com mais serenidade.
Kalatosov não economizou recursos. Filmou por nada menos de 14 meses em Cuba, exigindo negativos infravermelhos para filmar – material que era de uso militar exclusivo, para filmagens especiais, como a face oculta da Lua. Naquele momento, a corrida espacial era uma das arenas em que a Guerra Fria se manifestava com mais fúria. Que Kalatosov tenha obtido acesso a esse material indica claramente a força política da co-produção cinematográfica.
Um outro indicador da alta prioridade de Soy Cuba foi demonstrada quando o cineasta solicitou milhares de soldados para reconstituir seqüências que evocavam a vitória da Revolução Cubana. O irmão de Fidel, Raúl Castro, imediatamente enviou-lhe nada menos de 5.000 soldados da parte oriental da ilha, o que, como lembra hoje um dos técnicos da filmagem, significava deixar desguarnecida aquela parte da ilha num momento em que ela estava sob a mira dos mísseis americanos.
O cineasta brasileiro reencontra atores, técnicos, o co-roteirista Enrique Pineda Barnet, unindo as pontas da história, detalhando bastidores e fazendo um balanço distanciado do tempo da realização. Além disso, mostra seqüências impressionantes do belíssimo filme original, que documentam sua incrível colocação de câmera – como a do enterro do estudante e da piscina de um hotel. Com isso, fornece elementos para o resgate de um filme que circulou pouquíssimo na época de sua realização, foi reabilitado recentemente pelos elogios de cineastas americanos como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que contribuíram para sua restauração e foi lançado em DVD, inclusive no Brasil.
Tarcísio e Glória
Hoje, a maratona fica mais acelerada com o início das sessões da competição latina, dois filmes à tarde – o argentino Buenos Aires 100 km e o mexicano Um Dia sin Mexicanos -, com um curto intervalo antes das sessões nacionais da noite, que hoje trazem duas ficções, Cafundó, de Paulo Betti, e Cerro do Jarau, de Beto Souza (este já premiado no Festival do Recife). Haverá também uma homenagem ao mais tradicional casal das novelas brasileiras, Tarcísio Meira e Glória Menezes, que recebem o troféu Oscarito. Encerrando a longa noitada, uma exibição fora de concurso da esperada cinebiografia da dupla Zezé di Camargo e Luciano, 2 Filhos de Francisco, estréia do diretor Breno Silveira em que o cinema nacional deposita suas esperanças do primeiro grande sucesso de bilheteria do ano. O filme tem estréia nacional com 300 cópias nesta sexta (19).
