A ambição de tentar incluir no enredo um grande número de episódios históricos acaba atropelando o ritmo. A primeira parte do filme, na verdade, refaz o primeiro Gaijin (1980), filme que lançou o nome de Tizuka. Ou seja, conta-se a trajetória de Titoe, uma jovem imigrante japonesa que viaja para o Brasil no começo do século XX. Forma família em Londrina, norte do Paraná, e seus descendentes vão atravessar as próximas décadas enfrentando os altos e baixos da economia e da política no Brasil. Ou seja, ditadura militar, redemocratização, confisco do Plano Collor, crises econômicas e o fenômeno dos “dekasseguis”, os netos e bisnetos dos primeiros japoneses, agora de volta ao Japão em busca de oportunidades, mas encontrando discriminação. Em outras palavras, material para uma minissérie.
Gaúcha, Tizuka tem esse trunfo a mais para ganhar a simpatia neste festival. Mas tem pela frente outro gaúcho de prestígio, Carlos Gerbase, que nesta noite de quinta (18) exibe aqui seu segundo longa, Sal de Prata, uma fantasia romântica ambientada no mundo do cinema, estrelada por Maria Fernanda Cândido (que há dois anos venceu o troféu de melhor atriz aqui por Dom) e Camila Pitanga.
Como já acontecera nos dois festivais onde foi premiado este ano, Recife e Belém, o documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, emocionou profundamente a platéia ao abordar os desafios de portadores da síndrome de Down e suas famílias. Três personagens do filme e uma das mães apresentaram o filme e foram muito aplaudidos.
Na sessão latina, ponto para o concorrente venezuelano Punto y Raya, da diretora Elia Schneider. Um raro exemplar de uma cinematografia sem tradição, “Punto y Raya” explora com ironia a rivalidade entre a Venezuela e a Colômbia através da convivência entre um soldado colombiano (Edgar Ramires) e um venezuelano (Roque Valero) servindo na fronteira entre os dois países. Um lugar onde os dois dependem de seu jogo de cintura para sobreviver à violência dos narcotraficantes e à corrupção do exército, numa metáfora perfeita do impasse político de vários países da América Latina.
Também seguindo uma estética de novela, o concorrente português, Kiss Me, de António da Cunha Telles, conta a história de Laura (Marisa Cruz), uma jovem que abandona marido espancador e filho pequeno para juntar-se a uma tia viúva e liberada. Juntas, as duas escandalizam a pequena cidade onde vivem por seu comportamento liberal demais para os anos 50 e 60, quando ainda vigorava a ditadura salazarista e a espionagem dos “pides”, integrantes da temida polícia secreta. Laura adota como seu mito Marilyn Monroe, tingindo o cabelo e repetindo quase ponto a ponto sua sorte, ao tornar-se objeto de desejo de todos os homens, mas sem encontrar a felicidade com nenhum.
Apresentando seu filme, o diretor Telles declarou que procura fazer cinema “na contracorrente do cinema português” que, a seu ver, “tornou-se muito erudito”. Ele, ao contrário, procura “um cinema transversal, capaz de dialogar com vários públicos”. O problema de “Kiss Me”, apesar das belas imagens, é uma certa falta de aprofundamento das personagens, que lhes daria mais consistência.
